RockinRio Humanorama - Como Começar A Tornar-se Um Cidadão Antirracista

Como Começar A Tornar-se Um Cidadão Antirracista

Quando convidada a escrever no lançamento do Humanorama, pensei em múltiplas abordagens para incentivar a consciência por um mundo melhor: a responsabilidade do entretenimento no imaginário contemporâneo, o impacto das redes sociais na produção desses imaginários, o papel das marcas nisso tudo… embora todos os temas aqui citados tenham sua relevância, não posso deixar de lado o tema que mais me afeta como causa hoje em dia: o que cada um de nós pode fazer para combater o racismo estrutural. 

Pode parecer que não é um problema seu, mas como bem citou a autora e professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina Lia Vainer Schucman em uma palestra para todo o Grupo Dreamers: "para que o racismo exista, existem racistas". 

De quem é o problema? 

Este problema em específico é de todos nós.  

Diferente de uma crise hídrica, cuja solução pode ser resolvida com uma combinação de economia de água e emprego de tecnologias, o racismo não é algo que se possa resolver com uma sessão na Câmara ou com uma carta de intenções das mentes mais brilhantes do país.  

Esse é um dos temas que exige trabalho de formiguinha e perene vigilância dos seus atos. Exige questionar-se sobre como e quando pequenas escolhas cotidianas privilegiam pessoas já privilegiadas social ou economicamente. 

E como começar a tornar-se um cidadão antirracista? 

Primeiro de tudo: buscando dados confiáveis. Contra fatos não há argumentos. Você tem dúvida se são mesmo as pessoas pretas mais encarceradas no Brasil por crimes de baixo impacto ou periculosidade? Pesquise. 

Você tem dúvida se são as pessoas pretas que mais morrem de covid-19? Pesquise. 

Se você tem dúvida se são as mulheres pretas que menos recebem por cargos e salários iguais no comparativo com pessoas brancas, pesquise. 

Se por acaso você tem dúvidas se são as mulheres pretas que mais sofrem ou morrem de violência doméstica no Brasil, por favor, pesquise. 

Infelizmente, as conclusões são óbvias, mas prefiro que você mesma(o) se depare e leve seu próprio tempo digerindo o impacto desses dados. 

Pesquisou? Compreendeu? Compartilhe a informação. Compartilhe a surpresa, o choque, diga como se sentiu se deparando com essa realidade. É ela que você quer para o futuro da humanidade? Se não, bote a boca no trombone, como diziam antigamente. As gerações passadas firmaram um pacto de silêncio sobre tudo que era errado. Havia um pacto de silêncio sobre depressão, pedofilia, homofobia, machismo, feminicídiotransfobia e, sim, também sobre racismo. Esse silêncio era e é a garantia de que as coisas se mantenham no status quo. A nossa voz, o nosso acesso às mídias sociais, é sim uma arma poderosa para pautar imprensa, governantes e sociedade.  

Permita-se conhecer pessoas pretas em situação de vulnerabilidade ou não. Em workshops guiados pela consultoria Indique uma Preta, percebi o quanto as pessoas brancas possuem círculos majoritariamente brancos. Como você irá ter empatia pelo que não conhece? Quebre o padrão desses círculos. Convide alguém para um café, um papo, um almoço. Ouça o que essa pessoa tem a dizer sobre antirracismo. Procure compreender uma perspectiva que não era a sua até então.  

Esteja disposto a ceder. Se você é uma pessoa curiosa e já abriu uma aba no seu browser para buscar todas as perguntas do item 1, você já compreende o nível da desigualdade que te rodeia. Na próxima oportunidade de trabalho que chegar até você ou que você mesmo tiver chance de abrir, qual será o seu pensamento: vou encaminhar para aquele meu amigo ou amiga branco ou vou compartilhar e perguntar a pessoas pretas como fazer essa vaga chegar a quem mais precisa? 

Esteja disposto a ceder. Volto a repetir, pois essa frase vai muito além do meu exemplo do item 4. Ela vai no cerne dos privilégios que mantém brancos no topo e pretos na base da pirâmide socioeconômica brasileira. E, sim, para mudar o jogo é preciso aprender a ceder. Assim como as nossas mães nos ensinaram na primeira infância: você já brincou. Agora empresta um pouco para o seu amiguinho? 

E, por fim, presenciou alguma cena ou situação que lhe pareceu ser uma reprodução do racismo entranhado na sociedade? Mesmo que "não seja por mal" (aspas, porque raramente é. E é dessa forma sutil e inconsciente das consequências que a desigualdade se perpetua). Não se cale. Todas as pessoas têm um lugar de fala. Levante o debate. Questione. Há 133 anos do fim da escravidão e ainda somos vozes clamando por aliados nessa luta ancestral. 


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Patrícia Moura

Publicitária, Especialista em Mídias Digitais, Professora e Palestrante. Se apaixonou pela comunicação em redes sociais no ano de 2006 quando concluiu um estudo sobre o comportamento do consumidor nas comunidades do Orkut. Desde então, atua em agências de comunicação, onde já passou pelas áreas de redação publicitária, social media e planejamento estratégico. Atualmente é Professora da ESPM no curso Comunicação Eficaz em Redes Sociais e Diretora de Estratégia Criativa do A-LAB Content Lovers, cujos principais clientes são: Rock in Rio, Itaú, Localiza Hertz, Submarino, Grupo Dreamers, Duty, Dabelle Hair, entre outras marcas e projetos especiais.

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