RockinRio Humanorama - Como Os Robôs Podem Ajudar A Restaurar A Humanidade?

Como Os Robôs Podem Ajudar A Restaurar A Humanidade?

As dúvidas do mundo contemporâneo se multiplicam na velocidade do desenvolvimento tecnológico. Cada desafio humano resolvido pela tecnologia desencadeia uma série de novas lacunas. A complexidade nos negócios aumenta numa escala também exponencial. Nos afeta a todos, sem exceção. Desde donas de casa a grandes líderes. Desde pequenas empresas até grandes corporações.  

O renomado futurista Ray Kurzweil aposta que estamos, neste exato momento, iniciando  pelo menos 3 grandes revoluções. Cada uma com impacto semelhante ao que foi a internet em nossas vidas. E como se já não fosse o suficiente, estas 3 revoluções devem acontecer de forma simultânea e entrelaçadas. A complexidade de hoje deve parecer pequena frente ao que nos espera nos próximos anos.  

Kurzweil acredita que estamos no início de uma escalada tecnológica no campo da genética. Segundo ele, estaríamos desenvolvendo a passos largos a reprogramação biológica, rumo a eliminação de doenças e retardamento do envelhecimento. Não custa lembrar que o mapeamento genômico há 20 anos custava US$ 100 milhões em pesquisas e que hoje existem testes de ancestralidade por menos de US$ 100. 

Estaríamos também iniciando uma curva ascendente em relação às nanotecnologias. Cientistas estão cada vez mais próximos de dominar a arte de manipular a matéria numa escala atômica e molecular, lidando com estruturas entre 1 e 1000 nanômetros. Matérias recentes na mídia especializada divulgam, por exemplo, o desenvolvimento de uma ‘escultura’ 3D em escala atômica que pode permitir o avanço de novos nanodispositivos quânticos. 

A terceira revolução preconizada por Kurzweil, talvez a que esteja mais avançada e próxima de nós, diz respeito aos robôs. Máquinas inteligentes que ajudam e auxiliam os humanos no dia-a-dia. É interessante frisar que ele não se refere somente ao grande avanço percebido em máquinas como os já populares cães-robôs SPOT ou os robôs acrobatas ATLAS da Boston Dynamics. 

Muito provavelmente as vedetes da revolução robótica (já em curso) serão os robôs digitais e desmaterializados. Ou seja, as inteligências artificiais. As formas de inteligência similar à inteligência humana, porém praticada, softwares. Uma inteligência que já está entre nós, disseminada nos assistentes virtuais, na medicina, na segurança, nos transportes, na alimentação, no entretenimento… Estão se infiltrando em nossas vidas pessoais e profissionais.  

E quando o assunto é mercado de trabalho, um alerta se acende. Nossa atenção se dirige para os impactos, muito próximos, que poderão ocorrer com a digitalização de empregos e funções. Algo que vem impactando desde já praticamente todas as cadeias de produção da economia global. 

Diante deste contexto, seja você um empresário ou empreendedor, um líder ou executivo, um colaborador ou profissional liberal, a pergunta é:

O que esperar de um mundo onde os empregos serão ocupados por máquinas? 

Paradoxalmente, os mesmos fatores causadores deste complexo e temeroso desafio, os robôs, podem também estar iniciando uma importante discussão. Abrindo uma nova trilha de novas percepções que pode ajudar instituições e indivíduos a alcançarem um novo patamar através do potencial humano. 
 

A Pressão Crescente de Desempenho

John Hagel é consultor de gestão e autor especializado em ajudar líderes e organizações a antecipar oportunidades e desafios de negócios emergentes. Ele ocupa cargos de liderança no Fórum Econômico Mundial e atua no corpo docente da Singularity University. Também é fundador e co-chairman do ‘Center for the Edge’ da Deloitte, um centro de pesquisa que estuda as perspectivas sobre o novo crescimento corporativo.  

Apesar de ter atuado ativamente no Vale do Silício por mais de 40 anos, os pensamentos de Hagel não partem de um deslumbre tecnológico. Sua mensagem se inicia indo de encontro com os discursos entusiasmados, característicos do Vale. Ele aborda os líderes e instituições com um olhar realista e pragmático sobre o que chama de ‘Lado Sombrio da Tecnologia Exponencial’.  

As provocações de Hagel não se referem aos crimes cibernéticos, vazamento de dados ou privacidade – temas também muito relevantes e presentes nos fóruns de discussão mais sofisticados da atualidade. Mas a algo intrínseco à tecnologia. Algo sem o qual a própria tecnologia não poderia existir… A fonte e o fruto da tecnologia nas instituições: o aumento da pressão de desempenho sobre indivíduos. 

Ele se refere ao aumento acelerado das cobranças sobre a eficiência e produtividade. Um fator que vem crescendo nos últimos anos, que  todos nós experimentamos hoje em dia e que tende a crescer ainda mais no futuro próximo.  

Segundo Hagel, o aumento da pressão de desempenho sobre indivíduos é resultado do paradigma em que organizações são projetadas para alcançar a máxima performance possível – a Eficiência Escalável. Representa uma corrida por fazer cada vez mais e com menor custo. Um processo que se inicia pela adoção de rotinas padronizadas e específicas, que passa pela digitalização de processos e busca a eliminação de posições de trabalho, substituindo-as por máquinas.

Um processo de fato sombrio, que desenvolve uma cultura de medo e culmina na exigência máxima de líderes e colaboradores. Fazendo com que profissionais tentem acompanhar os ritmos frenéticos impostos pela tecnologia para se manterem relevantes para as organizações.


Uma Nova Rotina de Tarefas

Diante deste conflito, John Angel se antecipa aos que sugerem processos de reskilling ou lifelong learning sem uma visão mais profunda sobre o contexto. Acredita que uma simples requalificação de colaboradores apenas adiaria o problema. Ganharíamos apenas um pouco mais de tempo até que as máquinas também tomem estas novas posições. Ao alocar profissionais a outras camadas de trabalho, mantendo a mesma lógica, somente os levaria a novas rotina de tarefas. Os profissionais seriam cada vez mais bombardeados por dados e análises gerados pelas máquinas, o que só aumentaria as pressões de desempenho.  

Hagel, no entanto, vislumbra novas oportunidades. Defende a criação de novas abordagens que gerem de fato novos valores. Diz que devemos recrutar as verdadeiras capacidades humanas. Habilidades que não são específicas de algum contexto em particular, mas que sejam generalistas e se apliquem em qualquer ambiente. Tais capacidades não seriam utilizadas em problemas recorrentes e repetitivos como outrora, mas em oportunidades inéditas. Abririam espaço para o uso consistente da imaginação e da criatividade para descobrir como transformar cada desafio em oportunidade. E assim realmente agregar valor ao processo, aos demais colaboradores, à instituição ou à sociedade.  

São pelo menos dois os argumentos que poderiam resistir e ir contra a esta nova chamada às faculdades imaginativas e criativas de Hagel.

O primeiro argumento é que nem todos os indivíduos seriam dotados de capacidade de imaginar e criar. Hagel, de pronto, resgata pensamentos de Ken Robinson e outros autores e nos lembra que todos nascemos com os dotes da imaginação e criatividade. Lembra que quando crianças todos temos altos índices de curiosidade e inventividade, mas que diminuem ao longo da vida soterrados pela educação tradicional. Mas reforça que tais capacidades podem ser resgatadas, nutridas e encorajadas para serem usadas em novos desafios.

O segundo argumento é a percepção de que não haveria espaço para todas as pessoas se encaixarem em atividades imaginativas desta espécie. Muitos dizem que as instituições não precisariam de muitas pessoas para identificar oportunidades e resolver problemas, e que ainda assim haveria diminuição dos postos de trabalho. Hagel também é categórico quanto a este argumento. Diz que diante das mudanças exponenciais que estamos vivendo, infindáveis problemas surgem todos os dias, também na mesma proporção. Desde que se mudem os paradigmas da eficiência escalável nas organizações, haveria, portanto, uma enxurrada de oportunidades a serem trabalhadas de forma criativa pelos humanos.


Poder Distribuído

Buscando exemplos de instituições que operam segundo suas teorias da nova geração de valor, John Hagel conduziu uma pesquisa pelo ‘Center for the Edge’ e mapeou cases de organizações que buscam (ou buscaram) redefinir o trabalho sob o ponto de vista humano.

Um desses cases, muito conhecido pelo mercado, é a Toyota, que no seu curso natural de processos e automações redefiniu emblematicamente o trabalho para seus colaboradores. Mantiveram-nos no mesmo lugar dentro da operação, mas refinaram suas contribuições na cadeia de valor. Se permitiram a exploração de potenciais ainda inexplorados. Seus operadores na linha de montagem se tornaram ‘identificadores críticos de oportunidades’ no famoso processo de melhoria contínua. Cada colaborador passou a ser uma peça inteligente dentro do sistema. Cada um poderia identificar em tempo real pontos a serem melhorados. O funcionário passou a ser uma espécie de herói que, empoderado, contribuia para o grande sucesso do processo e da organização. Uma manobra que redefiniu o nível de paixão de cada membro da organização.

A pesquisa do ‘Center for the Edge’ ainda identificou cases mais recentes como a Morning Stars. Uma empresa californiana com uma extensa cadeia de valor através do cultivo, processamento e distribuição de produtos à base de tomates. Num processo interno orientado à autogestão, cada colaborador também foi habilitado a identificar e resolver uma missão de melhoria no processo. De forma ampla e irrestrita, independente de seu posto, cargo ou grau de escolaridade, todos tiveram a liberdade e o poder para cumprir suas próprias missões. Permitindo, por exemplo, que um trabalhador braçal desenvolvesse novas ferramentas para a coleta de tomates. Uma melhoria que hoje é utilizada em todas as plantações da empresa.

Há ainda o exemplo da Koch Industries, um conglomerado nos Estados Unidos com subsidiárias de fabricação, comércio e investimentos. Seguiu o mesmo princípio identificado por Hagel, oferecendo oportunidade para seus colaboradores agirem de forma imaginativa e criativa. Transformou cada membro do time num intraempreendedor que pudesse exercer diariamente todo o seu potencial de criação. O processo resultou em soluções inusitadas. Como a de um vaqueiro diante da necessidade de localizar cabeças de gado desgarradas do rebanho. O colaborador usou drones para evitar o problema e passou a monitorar continuamente as posições dos rebanhos. A solução evoluiu, recebeu sensores infravermelhos e se tornaram ferramentas de monitoramento da saúde do gado, identificando doenças de forma precoce.

Seja na Toyota, na Morning Star ou na Koch Industries, cada colaborador teve seu trabalho ressignificado. E passaram a funcionar como uma Unidade Mínima de Transformação em suas organizações. 

A mensagem pragmática de John Hagel, que se inicia em um lado não tão glamuroso das tecnologias, transforma um dos grandes desafios do futuro do trabalho numa luz de possibilidades, através das capacidades imaginativas e criativas. Hagel diz que essa abordagem não somente é possível, mas necessária para que as empresas sobrevivam às grandes ondas das revoluções que estão formando. Entende a necessidade de reinvenção das organizações em busca de uma melhoria acelerada de valor, a partir de seus colaboradores em atividades mais críticas e protagonistas.

Sugere que aproveitemos nossas capacidades humanas únicas para encontrar um significado real para o trabalho de homens e mulheres. Para que não sejam apenas uma engrenagem numa máquina sem sentido, mas unidades de contribuição contínua de valor. Estamos apenas diante de suposições de um grande pensador contemporâneo. Hipóteses que nos abrem algumas esperanças e nos oferecem algumas possibilidades. 

Talvez, o desafio iniciado pela tecnologia, que nos traz pesadelos quanto ao futuro do trabalho, nos faça perceber com mais profundidade os nossos principais valores humanos. Talvez os problemas causados pelas máquinas nos façam resgatar nossas verdadeiras essências e nos torne pessoas melhores. Talvez os robôs nos tornem mais sensíveis e nos ajudem a restaurar a humanidade. 

Ouça a versão podcast, aqui:

Saiba mais em:https://www.23andme.com/ , https://phys.org/news/2020-09-e-beam-atomic-scale-d-sculpting-enable.html , https://www.bostondynamics.com/ , https://www2.deloitte.com/nl/nl/pages/center-for-the-edge/topics/center-for-the-edge.html , http://www.toyota-global.com/company/history_of_toyota/75years/ , https://www.morningstarco.com/ , https://www.kochind.com/ .


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Andre Bello

Andre Bello é professor e consultor do CRIE – Centro de Referência em Inteligência Empresarial (COPPE UFRJ), professor e consultor da HSM do Brasil. Autor e palestrante nas áreas de inovação, transformação digital e futuro. Especialista em Design Thinking e metodologias colaborativas, com 25 anos de experiência em diversas áreas do design, tecnologia e solução de problemas através de projetos transdisciplinares. Co-responsável pelos eventos TEDxRio 2011, TEDxRio+20, TEDxPiraí e TEDxRio Metrópole 2014, conferências multidisciplinares licenciadas pela organização TED. TEDx Speaker no TEDxFortaleza 2016 e TEDxRio 2016. Idealizador da plataforma Acredite! de transformação e protagonismo jovem, autor do livro “Acredite! – Design Thinking Para Jovens de Todas as Idades”. É co-founder do Singularity University Brazil Summit, co-founder Skill Box e advisor do Rock in Rio.

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