RockinRio Humanorama - Consumo Consciente

Consumo Consciente

Temos ouvido cada vez mais falar sobre “consumo consciente”. Mas será que o nosso consumo está ficando mais consciente? 

 

Quem tem algum conhecimento do assunto, questiona o termo pois sabe que todo tipo de produção (digamos) convencional, está ligada a devastação e exploração do meio ambiente e de muitas pessoas (desde quem faz até quem compra), logo, comprar, qualquer coisa, gera um impacto no planeta e ainda há muita falta de informação (e consciência) sobre esses impactos.  

O termo “consumir” tem a ver originalmente com destruir, saquear, exaurir. Surgiu como uma palavra impregnada de violência e já esteve relacionada a doenças e os seus efeitos. Com o tempo ganhou novo significado. Durante a minha infância/adolescência era algo positivo que conferia status a quem podia se dar ao luxo. Recentemente, tem se tornado algo a se questionar.  

A Revolução Industrial, colocou o foco da sociedade nas empresas, nos produtos, no lucro. Depois disso, nunca mais fomos os mesmos. A sociedade industrial fez das pessoas seres de produção e consumo. Ela nos isolou do mundo natural e nos fez perder a conexão com outros seres e a noção de que somos Terra consciente. A busca pelo dinheiro tomou conta de tudo. 

Perdemos a conexão com o que é sutil e imaterial. Em dois séculos, as empresas e o sistema capitalista transformaram o mundo e nossa vida. Foram muitas inovações, tecnologias e conquistas. Mas parece que muitos se atrapalharam, sem saber lidar com essa fonte de energia que é o dinheiro. Começamos a destruir muito de tudo.  

Perdemos a noção de que recursos são finitos. Passamos a querer mais. O capitalismo instaurou a cultura do “ter”. Ela arruinou a vida de muitas pessoas, que passaram a tomar suas decisões baseadas em quanto poderiam “ganhar” e “parecer”. Programas mentais de medo, escassez, concorrência tomaram conta do mundo.  

Apesar de tantas maravilhas, a ganância, a competição, a exploração dos consumidores, funcionários e até mesmo do planeta tornaram-se banais na busca desenfreada por lucro e riqueza. Tudo passou a ser objeto e o homem, o principal sujeito. A industrialização precisou manufaturar demanda (para possibilitar o crescimento da produção e das empresas).  

O consumo foi vendido como uma porta de acesso para a felicidade. As pessoas foram estimuladas a comprar mais que o necessário. Então elas compraram, compraram e compraram, mas continuaram infelizes. O consumo virou consumismo e pilhou as pessoas num nível de ansiedade extremo. Quanto mais ricos, mais esgotados, dependentes e deprimidos uns se tornaram.  

Mesmo assim, nossa sociedade, engolida pela lógica capitalista, parece continuar buscando sentido por meio da única coisa que lhe foi dada como objetivo de vida (consumir). É que culturalmente acreditamos que precisamos consumir para criar nossa identidade. Embasados no “você é o que você consome”, o marketing e a moda continuam reforçando crenças fundamentadoras do colapso ambiental que agora eles dizem combater.  

Combustíveis fosseis (como o petróleo) já deveriam ter sido abandonados desde os anos 90. Todos os relatórios da década de 90 diziam que a gente precisava parar de consumir petróleo, que ele poderia acabar. De lá para cá, a gente só aumentou o tanto de coisas feitas de petróleo (como plásticos), porque assim surgem novas empresas e novos produtos.  

Uma das razões do consumo (produção e comunicação) “inconsciente” é que se todas as 8 bilhões de pessoas que vivem no planeta souberem o que está por trás do que consumimos, os impactos diretos que causam na nossa vida e na vida do planeta, o capitalismo quebra.  

Os únicos períodos na História nos quais houve redução do efeito estufa das emissões globais foram períodos de crise econômica e estagnação. Isso comprova que o distanciamento sobre “quem somos” e nossa origem criou um sistema “arapuca”, no qual todo crescimento em algum ponto nos desfavorece. Não há intenção de explicação ou compreensão, pois qualquer tentativa desvenda a complexidade dos sistemas produtivos e da organização sociopolítica. Descobre-se um universo de variáveis e desafios indigestos.   

Então, em paralelo aos movimentos de expansão da consciência, para as empresas continuarem crescendo, produzindo e vendendo (e alguns poucos enriquecendo), surge o mito da sustentabilidade, que de mãos dadas com o mito do consumo consciente, tem se revelado para mim como um dos maiores desserviços dos tempos modernos. E um dos maiores desafios para o futuro. Calma, vou explicar.  

Estudando e atuando em projetos e marcas sustentáveis há alguns anos eu posso te garantir: a sustentabilidade como tem sido vendida, não existe. Trata-se de uma narrativa forjada para continuar conquistando consumidores com a ideia de que aquilo que se está consumindo é produzido de uma maneira sustentável, mas (na maioria das vezes) é uma mentira – seja por uma incapacidade do mercado de ser sustentável, seja pela falta de conhecimento do que é sustentabilidade ou na maioria das vezes é uma mentira mesmo para surfar uma tendência.  

O conceito de sustentabilidade que sempre foi bem aberto tem sido cada vez mais deturpado. Frágeis ou falsas narrativas ajudam a confundir mais ainda esta história. É por isso que recomendo questionar quem se diz ser sustentável, pois a sustentabilidade 100% não existe AINDA. Sempre que ouço isso eu procuro saber quais são as iniciativas em prática e noto se fazem parte de todo o processo (do início ao fim) e em todas as áreas da empresa. Somente assim ela pode ser considerada sustentável – caso contrário, é falta de conhecimento - ou má fé.  

O modelo do passado centrado em valores materiais não satisfaz à nossa época. É hora de inventar uma nova economia. Teoricamente, para chegarmos em cenários mais sustentáveis teríamos que tomar atitudes mais sustentáveis. Mais ou menos. Isso não é mais suficiente. Para ser eficaz precisa envolver mudanças na superestrutura de um sistema capitalista que não para e não vai parar de querer crescer, até que novas formas de desenvolvimento da nação, de medição de lucro e de impacto surjam.  

Não posso negar que existem muitas pessoas (e empresas) se movimentando, tentando descobrir novos caminhos. A busca pela sustentabilidade é uma longa jornada, que precisa começar de alguma forma. Pequenas iniciativas podem sim ser verdadeiras, genuínas, podem ser o início do movimento de transformação, uma transição. A intenção aqui não é invalidar quem está querendo melhorar e muito menos desconsiderar quem age de forma verdadeira.  

Porém é muito importante entender – e questionar para fazer as empresas entenderem – que a mudança precisa ser sistêmica, deve considerar os impactos dos processos como um todo, com novos padrões de criação, produção e consumo que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário. Isso significa pensar produtos que realmente sejam relevantes para as pessoas e a favor da vida. Não podemos mais nos enganar, acreditando que a solução seja a criação de um ou outro produto sustentável.  

Todos os produtos precisam ser relevantes. Precisam ser a favor da vida (com uma seleção consciente e amorosa do uso de matéria-prima, dos processos de produção, armazenamento, distribuição...) considerando os impactos que causam no meio ambiente e na comunidade. É preciso mudar estruturas. Mudar o sistema. Reinventar a cultura material. Perseguir sistemas inovadores e transgressores. Reinventar (com a certeza de que vivermos em um sistema complexo e vivo e que por isso nenhuma solução será definitiva).  

Apesar de ainda serem cenários utópicos, precisamos nos aproximar de processos inovadores na tentativa de alguma reinvenção. A missão de transformar um sistema que vem se consolidando há séculos é bastante desafiadora, iniciar algo novo e “sustentável” também é. Precisamos ter paciência. Apoiar. Porém, vigilantes e atentos. Buscar entender e questionar desde as formas de pensar sustentabilidade às possibilidades e impossibilidades de mudar. 

Cada escolha gera uma reação que precisa ser levada em conta. Toda iniciativa pode ter um lado positivo e negativo. O “consumo consciente” precisa deixar de ser vendido como algo que não gera impacto negativo, ou como algo que salva o mundo. Talvez seja mais honesto assumir, em um primeiro momento, a revisão de atitudes mais insustentáveis, como uma forma de se melhorar - não como uma narrativa comercial.  

É preciso descontruir narrativas que não nos levam a lugar nenhum. Ao comunicar suas iniciativas, uma empresa precisa estar preparada para ser questionada. E as pessoas precisam se acostumar a questionar. Consumo consciente não é uma responsabilidade somente de quem faz ou de quem consome. É um processo de corresponsabilidade. Somente assim conseguiremos entender quem de fato está atuando para disseminar uma nova consciente e quem está apenas querendo surfar uma onda (cheia de peixes com microplásticos na barriga).  


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André Carvalhal

Escritor, consultor e especialista em design para sustentabilidade. Autor dos best-sellers "A Moda Imita a Vida", “Moda com Propósito”, do livro finalista do prêmio Jabuti 2019 “Viva o fim” e do mais recente, “Como salvar o futuro”.

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