RockinRio Humanorama - A Cura Pela Beleza

A Cura Pela Beleza

Uma fita TDK com uma sequência de músicas bem escolhidas. Não havia declaração mais valiosa nos anos 80. Gravar um cassete para alguém era embrulhar para presente as canções e o tempo – nos dois sentidos. Verdadeira manufatura, a gravação demandava dias e noites de escolha, atenção dedicada, dedos plantados para o pause na hora certa.

Eu era boa em compor trilhas sonoras para as histórias de amor que eu vivia – ou sonhava viver. Caprichava na seleção, calculava o silêncio entre as faixas. Ao eleger a ordem dos títulos, escrevia nas entrelinhas. O resultado era uma seleção entrosada. "Hey Jude" vinha colada em "Your song", como se tivessem sido compostas juntas.

O mundo analógico, repleto de impossibilidades, colocava as músicas de mãos dadas para sempre. Talvez por isso as relações fossem mais duradouras. No som do carro ou no gravador de casa, o ouvinte se apegava àquela ciranda de lugares marcados. Ao fim de uma faixa, já cantarolava o início da outra. E assim cada casal tinha a sua trilha sonora. Pessoal, intransferível e impossível de ouvir em ordem aleatória.

Depois de terminado o namoro, as fitas eram restos mortais e terapêuticos. Ajudavam no luto daquele mesmo amor. E quantas célebres dores-de-cotovelo já embalaram nossas histórias comuns? Assim nos curávamos. E íamos compondo a nossa biblioteca em cassete, como quem coleciona temas de filmes – todos de uma mesma vida.

Tudo mudou, mas a fórmula ainda funciona. Amor e dor seguem se reciclando, usando a beleza como remédio. O sofrimento deu um tece trilha para a perda do outro. Um bom fone de ouvido liberta lágrimas represadas, já que sofrer em silêncio é ainda mais doído.

Amo ganhar músicas de presente. Não há melhor surpresa que alguém me adivinhar o gosto e provar que sabe o caminho até minha alma. As músicas e suas pausas. Minhas dores e respiros. Capazes de acender imagens e rastros, melodias nos recontam nossa história. Revelam o que não somos capazes de dizer. Tornam-se lugares. Para visitar de vez em quando, sentir de novo e então reencontrar-se. Chorar de tristeza – ou de beleza.

Faz tempo que essa palavra me salva. Quando comecei a escrever, aos 13 anos, talvez buscasse um atalho para a delicadeza. A escrita seria uma espécie de curadoria amorosa, um exercício de suavidade, capaz de abrir uma porta de onde só sai o melhor de mim. Mais importava escrever que ser lida – eu mesma me ouvia. Os textos manuscritos se tornaram um vício, a minha tentativa de transferir para as mãos a inquietude da alma. Escrever era o remédio e a (fisio)terapia. Meditação para não morrer de pensar. Trabalho manual para não enlouquecer.

De mares revoltos que não me davam descanso, fiz tempestades suaves de mim. Escrevi para voltar a ser leve. E o tempo mudava os afetos de lugar. Abria meus olhos, me ensinava a mudar de assunto. Distraidamente, ia me mostrando a vida de novo.

Cada um descobre seu caminho. Minha avó plantava mudas de tristeza para mais tarde ver florir. Passava o dia a catar as folhas do jardim. Desabafava com as plantas, dava de comer aos bichos. Não ficou para semente, mas morreu adubo. Com seu legado cultivo flores em mim.

A beleza não nos distrai do sofrimento, pelo contrário: coloca sentido. Assenta a dor para que ela finalmente se mostre. É o sopro que desperta e convida ao mergulho, melhor forma de trilhar o caminho que a dor quer de nós.

Enfeitada, a tristeza encontra seu lugar no mundo. Na beleza as dores se reúnem para falar da vida. Dos iguais. Mesmo em outras línguas, mesmo muito distantes. Dali voamos de nossos egos, juntamos solidões para cantar e dançar. Somos todos juntos, somos todos sós.

Fazer da beleza um modo de vida é tirar o dia a dia do lugar-comum. Viver na disciplina da delicadeza, como num exército ao contrário. Alimentar olhos e ouvidos como quem come frutas frescas. Cultivar silêncios para sentir, abrir frestas para deixar entrar a brisa e o vento. Um quadro, um poema, uma forma de preparar a mesa. Uma foto antiga e um pedaço de história. Bordar um verso, colorir um beijo, inebriar a sala de café quentinho. Desenhar o caminho até o quarto com passos brincalhões. O mundo precisa ficar mais bonito e cada um de nós pode esboçar seus traços.



Crônica do livro "PROCURAVA O AMOR EM JARDINS DE CACTOS”, de Cris Guerra, Gulliver Editora.


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Cris Guerra

Publicitária premiada e escritora, com sete livros publicados, Cris Guerra escreve na revista Vida Simples, assina uma coluna na Rádio BandNews BH, comanda o podcast 50 Crises (entre os Top Podcasts de 2020 pelo Spotify Brasil), produz conteúdo para suas redes se leva novos olhares sobre comportamento e desenvolvimento humano para todo o Brasil, por meio de palestras e eventos de diversos perfis.

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