RockinRio Humanorama - A Epidemia Do Autismo

A Epidemia Do Autismo

Muito foi escrito sobre a “Epidemia do Autismo”. Já ouvi especialistas, terapeutas ou até jornalistas, falarem do Autismo como uma moda, incluindo utilizar métodos matemáticos para mostrar que daqui a uns anos, se crescer exponencialmente, vai gastar triliões aos governos. Normalmente, esta ideia também é utilizada para impingir a aceitação de curas ao Autismo. Se for visto como uma epidemia, mais facilmente se aceitam métodos extremos para contra-atacar. 

Hoje em dia, os últimos estudos mostram que cerca de 1.9% da população tem autismo, sendo 3 vezes mais comum em meninos que meninas. 

De acordo com os dados do CDC (Center for Disease Control), em 1966, 0,046% da população era autista, comparado com 1.85% em 2016, um aumento de 4525%. Provavelmente este número assusta-o, mas vamos analisar esta jornada, e o seu porquê. 


A evolução de um diagnóstico 

O Autismo foi diagnosticado em 1946 pela primeira vez num menino chamado Donald Triplett (hoje em dia, Donald vive independente na sua casa e viajou pelo mundo todo). Com o tempo, mais crianças foram diagnosticadas, incluindo crianças e adultos institucionalizados. 

Em 1952, DSM-II definiu o autismo como uma condição psiquiátrica - uma forma de esquizofrenia infantil marcada por um distanciamento da realidade. Nessa altura, Bruno Bettelheim publicou a teoria de que o autismo era resultado de mães frias e sem emoção, as "mães frigorífico". Teoria que retirou muitas crianças autistas das mães, e foi refutada entre os anos 60 e 70. 

Em 1980, o DSM-III estabeleceu o autismo como um diagnóstico separado da esquizofrenia e descreveu-o como um "transtorno do desenvolvimento", que incluía falta de interesse pelas pessoas, graves deficiências na comunicação e respostas bizarras ao meio ambiente, nos primeiros 30 meses de vida. O DSM-III foi revisto em 1987, adicionando o transtorno invasivo do desenvolvimento não especificado  (PDD-NOS), o primeiro reconhecimento do Espectro. 

Em 1984, o Espectro foi mencionado pela primeira vez, com a introdução do DSM-IV, ao incluir o Autismo, PDD-NOS, Síndrome de Asperger, Transtorno Desintegrativo da Infância (CDD). 

Finalmente, em 2013, todos estes foram incluídos no Espectro do Autismo, mudando o diagnóstico de milhares de crianças e adultos Aspergers. 

Agora, vamos analisar esta evolução e expansão do diagnóstico, com a evolução de números: 

Imagem desenvolvida por Sara Rocha com dados da CDC

Embora mais pessoas estejam a receber o diagnóstico de Autismo, a proporção da população com sintomas do transtorno permaneceu estável, de acordo com um estudo com mais de 1 milhão de crianças suecas. Um estudo com crianças dinamarquesas revelou que os maiores causadores do aumento (60%) são: a mudança dos critérios de diagnóstico e a inclusão de pacientes de ambulatório (ou seja, não institucionalizados). 

E os outros 40%? 

 

Lembram-se que o Autismo era 3 vezes mais comum em meninos?

O National Health Service no Reino Unido estima que haja cerca de 700.000 pessoas no Espectro do Autismo no Reino Unido, com base numa proporção de género de aproximadamente 10:1. Se a proporção real for de 3:1 (que é hoje a mais aceite), significa que até 200.000 meninas e mulheres com autismo foram omitidas da contagem nacional. Crianças negras e hispânicas apresentam taxas mais baixas de diagnóstico devido à falta de acesso aos serviços. O rastreamento generalizado melhorou também a deteção do Autismo nesses grupos. 


E o aumento da consciencialização?

Antes de 1980, crianças autistas eram institucionalizadas e, portanto, menos visíveis para a sociedade, mas com filmes (apesar de serem muito baseados em estereótipos), a sociedade em geral começou a ouvir falar de Autismo, e como consequência, mais crianças e adultos receberam o diagnóstico. Também era comum crianças não verbais receberem o diagnóstico de deficiência intelectual, em vez de Autismo. 

Algo que tenho visto nos últimos anos, é também o aumento de diagnóstico em familiares de autistas. Recebo imensos pedidos de informação de mães e pais, que ao receberem o diagnóstico de Autismo no seu filho, perceberam que são também autistas e procuram diagnóstico. Afinal, os autistas têm que vir de algum lugar, já que é genético. 

Na verdade, a ideia de epidemia apenas serve para assustar. Se a sociedade estiver assustada, mais fácil será vender ideias como o consumo de lixívia em crianças autistas, choques na pele para alteração de comportamento, utilizar drogas para a castração química, entre outros; todos utilizados ainda hoje para “curar ou melhorar” o Autismo. E a indústria das curas, infelizmente, é milionária. 

O diagnóstico realmente aumentou bastante, tanto pelas alterações que o processo sofreu ao longo dos anos, como pelo aumento da consciencialização. Eu, como autista, não aceitaria nenhuma cura. Tenho apoios para determinadas dificuldades, mas o Autismo interfere tanto na pessoa que sou, que eu nunca aceitaria mudar-me para deixar outras pessoas confortáveis. Uma sociedade sem diversidade é uma sociedade estática afinal, visto que pensaríamos todos da mesma forma.  


Referências: https://www.scientificamerican.com/article/the-real-reasons-autism-rates-are-up-in-the-u-s/ , https://www.spectrumnews.org/news/evolution-autism-diagnosis-explained/ , https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18327636/ , https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12708575/ , https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/1362361300041003 , https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16977495/ , https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17086441/ , https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16575542/ , https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11411788/ , https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30892923/ , https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/1362361300004001002 , https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17927727/ , https://blogs.scientificamerican.com/observations/the-problem-with-aspergers/ , https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6594832/ , https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23719853/ , https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6594832/ , https://www.theguardian.com/society/2018/sep/14/thousands-of-autistic-girls-and-women-going-undiagnosed-due-to-gender-bias , https://www.bmj.com/content/350/bmj.h1961 , https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25365033/



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Sara Rocha

Ativista autista e escritora. Licenciada em Análises Clínicas e Saúde Pública e mestre em Gestão e Economia dos Serviços de Saúde. Data Manager na Escola de Medicina da Universidade de Cambridge, na área de investigação cardiovascular. Delegada voluntaria com a UN Women UK. Presidente e co-fundadora da Associação Portuguesa Voz do Autista.

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