RockinRio Humanorama - Inflexibilidade No Autismo: Pelos Olhos De Sara Rocha

Inflexibilidade No Autismo: Pelos Olhos De Sara Rocha

Durante a minha vida, recebi vários comentários acerca de como eu não cedia e de como era muito rígida nos planos que fazia. Isso é realmente verdade, até certo ponto, mas totalmente falso noutros. Atualmente, ao analisar a minha vida, percebi que tudo que faço precisa ter um propósito específico. 

Eu não viajo para “viajar”, vou a lugares específicos para fazer coisas específicas e não posso ir “dar um passeio” sem um propósito. Eu não vou sair sem um objectivo, ou “vamos dar uma volta algures sem plano”. Na verdade, fico irritada quando as pessoas sugerem isso. 

Fico muito feliz quando consigo estar sozinha e focar-me nos meus interesses especiais. Parar e deixar de o fazer para socializar, com toda a necessidade de mascarar e todo o esforço associado, faz-me precisar de um motivo, ou propósito. Temos apenas uma quantidade específica de energia diária para tudo na nossa vida, os nossos empregos, amigos, relacionamentos, e alocar essa energia para coisas que têm um motivo faz com que eu não fique demasiado cansada ou tenha um esgotamento ou meltdown. 

Situações em que “logo se vê”, significa que terei que continuamente não saber quanto terei de mascarar e a quantidade de esforço que terei que fazer sem nenhum propósito específico para além de outras pessoas o quererem. Não sou boa com situações inesperadas e não planeadas, que me deixam extremamente sobrecarregada e confusa, por isso, ter um propósito e um caminho ajuda-me a controlar o meu próprio ambiente e a garantir que o resultado valha todo o esforço. 

Neurotípicos não gostam de situações não planeadas e alguns culpam-nos até de sermo“inflexíveis” e “muito rígidos” por não concordarmos com esse tipo de atitude despreocupada, mas para nós não é despreocupado de todo. Na verdade, exige imensa preparação da nossa parte. 

Não acho que as pessoas autistas não sejam flexíveis. Acho até que somos bastante flexíveis, vivemos num mundo onde temos que nos adaptar constantemente à forma neurotípica de trabalhar, socializar ou ser. Não acho irracional cuidarmos dos nossos níveis de energia e usá-los para garantirmos a “sobrevivência” num mundo que não foi projetado para nós. 

Está ciente de que todos os encontros sociais nos drenam energia e que a maioria das coisas na vida precisa ter, pelo menos, um pequeno nível de socialização. Agora, imagina que só consegues lidar com uma parte específica disso, no trabalho, contexto de família, amigos, parceiros, etc. Arriscarias envolver-te em situações que exigissem gastar um indeterminado nível de energia sem nenhum motivo específico, e depois não ter o suficiente para trabalhar? Ou concentrar-te-ias em aspetos que têm um propósito, como o trabalho, alocando a energia que restar a aspetos que valham a pena? 

Não é irracional, eu acho, querer gastar a pequena quantidade de energia que temos em algo que realmente gostamos, em vez de nos forçarmos até termos um meltdown ou exaustão dolorosa. 

Além disso, a minha experiência com pessoas autistas é de que somos geralmente bastante flexíveis no que respeita a aceitação das pessoas da forma que elas realmente são. Embora controlemos nosso ambiente, não tendemos a controlar as pessoas. Alguns neurotípicos, no entanto, podem mostrar-se mais inflexíveis na aceitação de determinados aspetos, como é o caso de temáticas relacionadas com a sexualidade ou questões de género.  

Temos que ser flexíveis todos os dias das nossas vidas, com o volume de som num bar, a conversa de circunstância no trabalho, o cenário de namoro, a forma como as amizades funcionam. Tudo na nossa vida tem que se adaptar a um mundo de neurotípicos, e eles raramente, ou nunca, precisam adaptar-se a nós. 

Então, na verdade, quem é realmente inflexível?


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Sara Rocha

Ativista autista e escritora. Licenciada em Análises Clínicas e Saúde Pública e mestre em Gestão e Economia dos Serviços de Saúde. Data Manager na Escola de Medicina da Universidade de Cambridge, na área de investigação cardiovascular. Delegada voluntaria com a UN Women UK. Presidente e co-fundadora da Associação Portuguesa Voz do Autista.

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