RockinRio Humanorama - O Que Significa Estar Vivo Neste Planeta?

O Que Significa Estar Vivo Neste Planeta?

“Estamos descendo à Terra. Não chegaremos intactos.”

- Bayo Akomolafe

Ao que parece estamos começando a entender o que significa estar vivo em um organismo vivo. Por muitos séculos, estivemos cegos para o fato de que o planeta não é uma coisa, uma pedra voando no cosmos ou o cenário de nossas vidas. Com a pandemia nos cercando e a morte de mais de 4 milhões de seres humanos, no Brasil em sua maioria negros e pardos refletindo nossa desigualdade social, se tornou quase impossível ignorar a interconexão que faz a vida ser o que ela é. Sentir na pele esse emaranhamento tem gerado em nós medo, urgência, culpa mas também uma oportunidade, uma janela que nos permite ver o que podemos ser para além do que fomos até hoje.

Mas antes de pensar no futuro, existe um convite a compreendermos o que nos trouxe até aqui. Se queremos evoluir, a evolução acontece a partir de algo que pulsa a transformação. Algo que será compostado e servirá de alimento para o que quer nascer.

As crises ecológicas, sociais e econômicas que estamos enfrentando não estão separadas umas das outras já que nada é ou está separado. Todas são expressões de uma única crise, a crise da narrativa dominante ocidental, que é antes de tudo uma crise de percepção de realidade. A crise da história única. A crise da Separação.

Uso a palavra ‘narrativa’ porque o poder de uma sociedade surge de uma história, desse sistema de acordos que serve de andaimes para a construção do mundo, desse tecido maior onde costuramos nossas biografias. Uma espécie de modelo de como devemos ser, pensar, sentir, estar no mundo.

Na base da história ocidental, que nasce na Europa e de maneira violenta se impõe como a única história válida, existe uma mitologia, uma matriz de narrativas, acordos, sistemas simbólicos, que geram as respostas para as perguntas mais básicas que temos sobre a vida.

A História da Separação, que é como Charles Eisenstein filósofo e matemático norte-americano se refere a essa narrativa, está baseada em desconexões, em rupturas: entre eu e eu mesma, entre eu e minha comunidade, entre eu e a natureza. Essas três desconexões criam as condições para o individualismo, a competição, a racionalização, a perda de nossas habilidades comunitárias, a criação de sub-humanidades a serem exploradas, a marginalização de culturas inteiras, o direito de exploração dos sistemas naturais para nosso crescimento econômico infinito, o consumismo desenfreado, as crises e perdas, algumas delas irreparáveis.

Não à toa nossos bilionários lançam suas cruzadas rumo a Novos Mundos. Não existe nada de novo nisso. Estamos apenas a repetir e sustentar a mitologia da Separação. Ainda no século XVI Francis Bacon disse que “Deveríamos nos esforçar para estabelecer e estender o poder e domínio da raça humana sobre o universo". No século XXI, Jeff Bezos, homem mais rico do mundo que recentemente empreendeu uma viagem turística ao espaço, segue rezando pela mesma cartilha, a de que um homem branco do norte global é o topo da cadeia evolutiva e que sendo o centro do universo pode controlá-lo. Acontece que ao que tudo indica, pela ciência e por outras narrativas que ficaram de fora da festa da modernidade, as coisas não são bem assim. Bezos, assim como Bacon, sofre de uma cegueira existencial criada e reafirmada pelos privilégios adquiridos com as Separações que mencionei anteriormente e que o impede de ver o óbvio. De que a mentalidade que o lança ao espaço é a mesma que destrói nossos ecossistemas, é a mesma que criou a pobreza como conhecemos e é a mesma que o força a buscar uma outra casa para alguns poucos abastados que poderão pagar por ela porque se aproveitam da existência da pobreza.

Existimos porque somos parte de uma rede que surpreendentemente atua através da colaboração. Os níveis de oxigênio e gás carbônico, a temperatura, a umidade, a pressão atmosférica, os nutrientes, a biosfera, a vida se cria através dessa cooperação entre seres humanos e não humanos. Entre o que classificamos como vivo e não-vivo. Uma cooperação pela vida sem hierarquias de importância e baseada na diversidade. Amplamente em dissonância com o que nos vendeu a história ocidental.

E o que isso tem a ver com Bezos e Bacon e com as crises que estamos enfrentando? Depois de séculos de domesticação, a história da Separação vive em nós. Em nossas instituições, em nossos hábitos de existência. E é preciso observar os colapsos produzidos por ela dentro e fora de nós antes de criar futuros que só parecem novas soluções mas que na verdade são repetições travestidas. É preciso ter olhos de ver. É preciso ficar com o problema.

A regeneração, que é a minha área de pesquisa, no sentido mais específico da palavra fala sobre a habilidade da natureza de se restaurar. Habilidade essa que nos habita também uma vez que - sim! - somos natureza. E aqui começam as boas notícias. Aprender com a história para cometer somente novos erros, honrar nossos territórios e ancestralidades, abrir espaço no mundo para que caibam vários mundos, colaborar com o equilíbrio dos sistemas naturais, ouvir o que a Terra quer nos dizer, tudo isso é regeneração. E nós sabemos como fazer porque a vida pulsa em nós.

As desconexões que mencionei são criações. Fazem parte de uma mitologia que não é a única. Seria impossível nos desconectarmos da natureza, porque somos natureza. Seria impossível nos desconectarmos de nossas comunidades porque somos essencialmente seres cooperativos. Seria impossível nos desconectarmos de nossa essência porque ela é algo que carregamos no mais profundo de nossa alma.

A regeneração quer relembrar que cada um de nós e todos ao mesmo tempo somos a vida. A vida que resistiu a 5 extinções em massa. A vida que tem mais de 4 bilhões de anos. A vida que sabe como se regenerar.  Nesse momento, existe uma sabedoria encarnada que está pedindo passagem. Nós sabemos como extrair desses corpos, desse sopro, desse DNA formas diferentes de existir. Foram nossos ancestrais que nos transmitiram essa sabedoria da mudança. Nossos ancestrais que remontam de tempos mais antigos que essa forma que possuímos hoje e que sabem o que significa estar vivo nesse planeta vivo.


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Lua Couto

Pesquisadora de Narrativas Regenerativas que abordam a dignidade humana em um planeta saudável e fundadora do @futuropossivel - coletivo brasileiro que trabalha com educação para a regeneração planetária. Lua é TEDx speaker e no último ano palestrou em eventos em empresas privadas e em organizações como a Unesco abordando temas como alfabetização de futuros e os limites da narrativa em que vivemos.

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