RockinRio Humanorama - O Som Do Silêncio

O Som Do Silêncio

“Olá, escuridão, minha velha amiga

Vim conversar com você de novo

Porque uma visão suavemente arrepiante

Deixou suas sementes enquanto eu dormia

E a visão que foi plantada em meu cérebro

Ainda permanece

Dentro do som do silêncio”

- The Sound of Silence de Simon & Garfunkel


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Photo by Luke Pamer on Unsplash


Quando comecei a escrever para o Humanorama assumi que seria divertido me colocar o desafio criativo de sempre usar a música como tema ou abordagem para os textos, afinal, esse novo projeto nasce de um contexto intimamente ligado com a música. Mas nesse artigo senti o chamado de compartilhar sobre uma experiência de transformação que passei recentemente a partir do silêncio e as reflexões que emergiram com isso.

Decidi me aventurar no Caminho de Santiago de Compostela. De Valença do Minho, em Portugal, até Santiago, na Espanha, em uma caminhada de aproximadamente 130 km que durou 6 dias.

Dentro da mochila já cheia de coisas levei também meus fones de ouvido para ouvir minhas músicas favoritas durante a jornada. Adoro ouvir música enquanto caminho, viajo muito mais longe do que os pés conseguem me levar.

Mochila pesada, ansiedade de chegar logo, andar mais rápido do que o meu corpo conseguia aguentar. Torci meu pé no primeiro dia. Fui me desfazendo de todo o excesso de peso que eu de fato não precisava carregar. Os fones foram embora com a mochila. Eu continuei andando. E, com isso, o primeiro aprendizado que uma jornada de transformação pode trazer: “Carregue só o essencial”. O que não é essencial vai te atrapalhar.

Quanto peso desnecessário carregamos em nossa jornada?

Pensei em desistir, dor no pé e dias com muitas horas de caminhada não são animadores nessas condições. Comprei uma proteção para o pé e fui. Queria ver até onde conseguia chegar. Como a dor não me deixava andar na velocidade que eu gostaria, para não ter uma lesão mais grave, comecei a andar no ritmo que o corpo permitia e, com isso, tive mais tempo de contemplar o caminho. Me abri para receber o caminho. E com isso veio o segundo aprendizado: “Não é você que chega ao caminho, é o caminho que chega até você.” Quando tirei o foco do objetivo final - chegar nos destinos - me permiti curtir a jornada. Tudo mudou.

Quanto estamos presentes e atentos ao nosso caminho? Quanto estamos abertos para curtir e nos deixar levar pelo inesperado?

Tive tempo para me conectar com a natureza. Sem meus fones e sem a música, me entreguei ao silêncio. E no estar atento ao silêncio, ouvi o som dos riachos e do balançar das folhas. Senti o vento esfriando o calor do corpo. Ao viajar na natureza, mergulhei em mim, na minha natureza. Pensei sobre a vida, refleti sobre a minha jornada (o meu caminho até aqui), revi o que era importante para mim, o que já estava plantado dentro e precisava ser nutrido. Me reconectei comigo mesmo e todas as ansiedades sobre o futuro perderam o sentido. Curti um tempo sem tempo ou espaço. O que só foi possível por estar sem fones, sem música, sem a necessidade de me perder na imaginação e do criar o futuro e sem a pressa de chegar ao final.

Quanto nos permitimos desconectar do mundo para nos reconectarmos com nós mesmos?

Passei por todos esses clichês. Mas o interessante dos clichês é que eles ganham novos sentidos e novos níveis de profundidade quando nos permitimos estar imersos na vastidão do oceano de nós mesmos. Para transformar o mundo precisamos primeiro transformar o “eu”.

Quanto estamos dispostos a nos transformar ao invés de querer transformar o mundo?

E fugindo da música, sem pensar intencionalmente, dei ao texto o nome de uma música muito conhecida, “the sound of silence” da dupla Paul Simon e Art Garfunkel, com trecho citado no início do texto. Fui resgatar a letra para criar conexões com o artigo e me deparei com uma citação de Paul Simon, em 66, ao explicar a inspiração por trás da música:

"Um dos maiores problemas que temos hoje é a inabilidade das pessoas de se comunicarem - não somente em um nível intelectual como também em um nível emocional - então você encontra pessoas que não conseguem tocar outras pessoas ou amar outras pessoas, e essa é uma música sobre a inabilidade de se comunicar, chamada The Sound of Silence.”

Então tudo fez mais sentido. Não estamos mais em 66 mas a fala continua atual. Não podemos nos conectar verdadeiramente com o outro se não temos a capacidade de nos conectarmos com nós mesmos. E, talvez, a nossa habilidade de conversar com o outro tenha se perdido no momento em que perdemos a habilidade de conversarmos internamente, com a voz invisível e com o som do silêncio.


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Mario Rosa

Mario Rosa é especialista em inovação, design thinking, futuros desejáveis e branding. É diretor da Abedesign (Associação Brasileira das Empresas de Design) e sócio da Echos Laboratório de Inovação. Líder Local Lisboa do World Creativity Day e Curador da Semana do Empreendedorismo de Lisboa (20/21). Como Design Thinker, viajou pelo Brasil ministrando o curso Design Thinking Experience. Também atuou como facilitador de aprendizagem em cursos in company para a capacitação de colaboradores de grandes empresas na abordagem do design thinking e também foi responsável por facilitar e gerenciar Jornadas de Inovação (trilha de aprendizagem de inovação para lideranças) pela Escola Design Thinking para clientes como Caixa Seguradora, Itau, Visa, Klabin, Porto Seguro. Atuou na Tatil por 5 anos como estrategista e desenvolveu projetos de branding e experiência para clientes como Comite Olímpico e Paralímpico (case premiado da marca Olímpica e Paralímpica Rio 2016), Natura, Lopes, Philips, Nokia, Coca Cola, Renault. Além de ter atuado também como consultor autônomo para clientes como IPPLAN e OCB (Organização das Cooperativas do Brasil).

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