RockinRio Humanorama - Pandemia Transgeracional: O Efeito Desse Marco Histórico Nas Gerações

Pandemia Transgeracional: O Efeito Desse Marco Histórico Nas Gerações

Com a vivência da pandemia durante esses meses e a certeza que a COVID-19 terá uma duração mais longa do que esperávamos, é possível mapear já algumas mudanças de comportamentos e efeitos nas distintas gerações. Conheço boomers que estão trancados há 5 meses e conheço aqueles que estão em uma espécie de negação ou falta de medo. Tenho filhos da geração Z, respectivamente 18 e 16 anos, que se adaptaram facilmente às rotinas digitais mas estão sofrendo com a falta de sociabilidade. Vi filhos de conhecidos – as crianças alfas –, resistindo às aulas nas plataformas digitais e sentindo de alguma forma a angústia de seus pais millennials, que vivenciam um futuro incerto para suas carreiras e suas vidas.

O vírus já mudou radicalmente como trabalhamos, socializamos, consumimos e vivemos. São milhares de vítimas, uma legião de desempregados, fronteiras fechadas, escolas fechadas, trabalho remoto, saúde e economia colapsadas, que terão efeitos duradouros no comportamento das distintas gerações. A pandemia é sim um fato de magnitude histórica e transgeracional. Eventos como esse, assim como tendências sociais impactam diretamente o pensamento, os comportamentos e as ações das gerações. Pesquisadores descobriram, por exemplo, que as pessoas que viveram o genocídio na Ucrânia (milhões de ucranianos morreram de fome entre os anos de 1931 e 1933), ou o holocausto nazista contra os judeus, exibiram mudanças na educação dos pais, em sua emocionalidade, na saúde e na coesão social. Essas mudanças impactaram não apenas os sobreviventes destes eventos, mas também as segundas e a terceiras gerações. Nesse sentido, podemos traçar um paralelo com a pandemia. Apesar de não termos claras as consequências a longo prazo, temos já algumas pistas que apontam para mudanças duradouras em todas as gerações; dos boomers (1946- 1964) passando pela geração X (1965-1980), Y (1981-1997), Z (1998-2009) e Alpha (2010 em diante).

Assim como a Grande Depressão e o 11 de setembro transformaram a maneira como as pessoas viviam, a COVID-19 também deixará marcas importantes tanto em adultos quanto em crianças. A pesquisa recente Deloitte Global Millennial 2020, em sua nona edição, já mapeou as consequências desta crise sem precedentes nas gerações Y e Z. Segundo a publicação, essas gerações permaneceram resistentes diante da adversidade e estão determinadas a promover mudanças positivas em suas comunidades e ao redor do mundo. “As gerações mais jovens foram especialmente afetadas, no entanto, apesar das condições incertas e desanimadoras, millennials e Gen Zs expressam resiliência impressionante e uma determinação para melhorar o mundo. À medida que reconstruímos nossas economias e sociedade, os jovens serão essenciais na formação do mundo que emerge”, afirmou Michele Parmelee, Deloitte Global Chief Purpose and People Officer.

É fato que as gerações mais velhas estejam calejadas com os efeitos de guerras e recessões. Nascidos em uma era de otimismo pós-guerra, passaram por muitas experiências ao longo dos anos: sobreviveram a guerras, mudanças sociais, convulsões políticas, etc. Por isso, seu comportamento durante a pandeia tem sido de menos preocupação do que seus filhos e netos acham que deveriam. De acordo com a pesquisa Datafolha sobre a percepção do brasileiro às medidas de prevenção ao coronavírus, as pessoas de 60 anos ou mais (geração baby boomer) são mais reticentes à gravidade da pandemia. 74% disseram acreditar terem muita chance de pegar o vírus, número inferior aos millennials (94%) e aos Zs (89%). As gerações mais jovens podem ficar frustradas com isso, mas os boomers podem sentir que já passaram pelo suficiente e são capazes de cuidar de si mesmos.

Porém, os Zs estão apenas debutando em sua primeira grande crise. Para termos uma ideia, quase 30% dos jovens da geração Z (entre 11 e 22 anos) e quase um quarto da geração Y (entre 23 e 39 anos) disseram na pesquisa, que perderam seus empregos ou foram colocados em licença temporária sem vencimento. E, apenas um terço dos millennials e 38% dos Gen Zs disseram que seu emprego e status de renda não foram afetados. Isso quer dizer que, apesar de menos impactados no quesito saúde, os mais jovens, estão sofrendo com a mudança total do mundo capitalista tal como o conhecemos. Sem as certezas de quais profissões vão existir, quais empresas irão sobreviver e quais empregos e trabalhos poderão trazer sustentabilidade financeira e satisfação, tudo para volátil. Na visão do antropólogo Michel Alcoforado, é como se roubassem deles o futuro. “Eles vão ter que fazer um reload e não sei se eles estão prontos para isso. Esse é o desafio. Se perdeu o futuro, fica difícil pensar o presente“, comenta ele.

De acordo com a Pew Research Center, o impacto é tão grande que podemos estar testemunhando o desenvolvimento inicial da nova geração. Assim sendo, os Zs, os nascidos após 1998, podem até ganhar um novo nome para definir sua geração. É um grupo que, repentinamente passou a entender coletivamente que sua existência e a dos outros pode mudar do dia para a noite. Sem baladas, festas, festivais e contatinhos, a sociabilização também sofreu impactos. Não se trata apenas de incertezas, mas de como esse novo conhecimento coletivo afetará as atitudes comportamentais. Será que acreditaremos daqui para frente que conexões valiosas e significativas podem ser feitas virtualmente? Será que seremos todos germofóbicos? Saberemos que o aprendizado pode acontecer em qualquer lugar? E como isso afetará a educação institucionalizada? Como nossos rituais sociais serão afetados pela tecnologia? Será que nossa ansiedade de voar não será mais pelo medo de uma pane aérea? Teremos maior respeito pela solidão e pela pausa? Reconheceremos definitivamente os trabalhadores na linha de frente como heróis? São muitas as interrogações.

A pesquisa da Deloitte, já apontou que a crise da COVID-19 pode ter reforçado para esses jovens, inclinações com relação a propósitos sociais, já que quase três quartos disseram que a pandemia os tornou mais compreensivos com as necessidades dos outros e que eles tomarão medidas para impactar positivamente suas comunidades. Isso obviamente terá um efeito direto no consumo já que mais do que nunca essa geração quer se relacionar com marcas que durante a pandemia cuidaram de sua força de trabalho e impactaram positivamente a sociedade. Outra pesquisa realizada durante a pandemia, a Barômetro Kantar Covid-19, confirmou a tendência. Quando o assunto é consumo, 48% dos jovens entre 18 e 34 anos acreditam que as marcas precisam servir de exemplo e guiar uma mudança mundial positiva e 35% esperam que essas empresas usem conhecimento para explicar e informar seus consumidores. Também, mais uma vez, a mudança climática surgiu como um problema crítico para a geração do milênio e a geração Z antes e durante a crise do coronavírus. Segundo título de matéria publicada na National Geographic em maio deste ano, para os jovens, há dois eventos decisivos em suas vidas: a COVID-19 e as mudanças climáticas; uma combinação imprevista e única que que moldará sua visão de mundo e definirá que tipo de adultos serão e que tipo de futuro criarão.

Com relação aos impactos para minha geração, a X, um tanto quanto negligenciada pelo marketing, também conhecida como “geração sanduíche”, foi descrita nesse momento como a mais preparadas para lidar com o isolamento do distanciamento social e da quarentena. Essa geração aprendeu desde a infância a se ocupar nas horas após a escola, antes que seus pais voltassem do trabalho. Portanto, o gerenciamento de muitas demandas nesse momento é quase uma extensão do que sempre viveram: cuidados com si mesmos, o futuro incerto e a necessidade de adaptação no trabalho, bem como os cuidados os filhos e seus pais idosos. Hoje, com idade entre 40 e 55 anos, a Gen X, apesar de menos propensa a complicações de saúde do que os boomers, também vê agora a questão cronológica ficar evidenciada. “A pandemia acaba botando em xeque o próprio conceito de idade emocional. Por mais que nos últimos anos a gente veja todo um movimento de repensar quem somos a partir do que escolhemos ser e deixando de lado estereótipos da idade, o coronavírus acaba resgatando momentaneamente o peso da nossa idade biológica”, acredita Marina Roale, líder em pesquisa e conteúdo da Consumoteca e Embaixadora de Idades Emocionais do Identidades.

Com relação à geração mais nova, os alphas, nascidos a partir de 2010, crianças hoje com máximo dez anos de idade, o impacto é gigante. Em meados de fevereiro, 300 milhões de alunos foram afetados pelo fechamento de escolas e universidades. Dois meses depois, este número cresceu para quase 1,6 bilhão de estudantes em 192 países, representando 90% da população estudantil global. Globalmente, o fechamento de escolas afeta aproximadamente 155 milhões de crianças no ensino pré-primário, 691 milhões de alunos do ensino fundamental, 537 milhões de alunos do ensino médio e 191 milhões de alunos do ensino superior. Além da perda significativa do ensino (já que a qualidade do remoto hoje está aquém do presencial), o confinamento das crianças impôs uma redução do repertório relacional com seus familiares, professores e obviamente outras crianças.

“Esse impacto [da pandemia] foi extremamente profundo e vamos ter de dar a mão para essas crianças por alguns meses, eu diria talvez até por alguns anos, para que elas não tenham o medo que tiveram. Eu não diria um medo explícito, mas essa incerteza, que pode ser muito prejudicial até mesmo na autoconfiança, na transformação das crianças em adultos pró-ativos nas suas áreas”, reflete Jamil Chade, colunista da Uol em Genebra. O efeito é tão importante que a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) divulgou dicas de como falar com as crianças sobre o coronavírus. “É possível que elas achem difícil entender o que estão vendo online ou na televisão – ou ouvindo de outras pessoas. Por isso, ter uma conversa aberta e cuidadosa com as crianças pode ajudá-las a entender, lidar e até dar uma contribuição positiva para os outros”, defende Florence Bauer, representante do UNICEF no Brasil. Será que no futuro conheceremos essa geração como a “geração mascarada”?  Ou a “geração distanciada”, por conta do distanciamento social?

Mas os efeitos não são apenas negativos. A pandemia condicionou todos nós a considerar o efeito de nossas ações sobre os outros. Por conta da transmissão do vírus, até mesmo atividades mundanas, como fazer compras no mercado, podem afetar aqueles que nos rodeiam. A consequência aqui pode ser o aprendizado da compaixão e da valorização do coletivo. Por conta também da quantidade significativa de tempo isolados com as famílias, nossos círculos de interações sociais têm sido menores, provavelmente incluindo parentes próximos ou talvez amigos mais próximos. Com essa diminuição, poderemos ter uma geração que aprenderá a valorizar as conexões e manter contatos que sejam mais intencionais. Além disso, sabemos que o coronavírus está aumentando os desafios com a saúde mental. E o que aparece nesse momento é a total vulnerabilidade de todos. O lado bom desta moeda é que, segundo um estudo publicado na Trends in Cognitive Sciences, descobriu-se que, quando as pessoas percebem a angústia nos outros, elas se identificam com a experiência. Isso, por sua vez, pode motivar a cooperação e aumentar a eficácia da comunicação. Esta pode ser uma geração que estará mais consciente das necessidades humanas, demonstrando empatia e desenvolvendo habilidades sociais positivas.

A interrupção das atividades, das viagens, das idas e vindas ao trabalho também trouxe uma reflexão sobre a cultura da agitação e da ocupação em tempo integral. Há menos coisas para se fazer, menos lugares para ir e uma redução geral do ritmo. Isso pode provocar comportamentos de mais presença no dia a dia. A comunicação é outro ponto importante. Com o uso frequente de videoconferências, estamos adquirindo novas aptidões em escutar o tom de voz, observar microexpressões e pistas não-verbais. Poderemos quem sabe desenvolver novos músculos de comunicação, nos conectando com as necessidades do outro e encontrando novas maneiras de fazermos conexões reais.

Por fim me conecto com um aprendizado comum do ser humano: sentimos falta daquilo que nos é tirado. Sair para comer fora, ir ao cinema, malhar em uma academia, ir para a escola, viajar, ir trabalhar presencialmente. A ausência e a limitação de tudo isso fez com que sentíssemos falta até daquilo que não parecia tão especial assim. Então, gosto de pensar em um futuro no qual as gerações serão mais apreciativas e mais grata pelas pequenas coisas. Como aprendi um dia, a gratidão vem da palavra grátis, gratuito. Poderemos simplesmente recuperar a gratidão de acordarmos mais um dia, respirar, viver, ter saúde. Afinal, a verdadeira gratidão é reconhecer que a vida é um presente.


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Sabina Deweick

Pioneira em cool hunting no Brasil, responsável por trazer essa metodologia para o País em 1999. Há mais de 20 anos atua como caçadora de tendências, futurista, pesquisadora de comportamento, consultora, educadora e palestrante. Trabalhou para inúmeras empresas nacionais e internacionais, além de implementar o primeiro curso de cool hunting no País. Apaixonada pela complexidade dos comportamentos humanos, acredita que não há nada mais futurista do que transformarmos por dentro para transformarmos por fora. Por isso, Sabina é uma eterna buscadora de si. Na sua busca, vêm tocando e transformando pessoas e negócios, abrindo possibilidades e perspectivas de futuros. Porque o futuro não é dado. O futuro é uma escolha.

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