RockinRio Humanorama - Permitir-me Ser

Permitir-me Ser

Eu descobri o meu autismo aos 29 anos.  

Em criança, gostava mais de animais e livros do que conviver com outras pessoas, e uma das piadas de família era que, em geral, não sabiam se eu estava em casa, por estar “no meu canto” a ler. Desde cedo a minha mãe sabia que eu era diferente. Eu não respondia ao meu nome, não falava com pessoas fora da família ou em situações sociais (mutismo seletivo), raramente partilhava o meu dia ou iniciava uma conversa e não me sentia confortável com afetividade, como abraços ou beijinhos. Lembro-me da paciência que a minha avó tinha, ao perseguir-me debaixo da mesa, para tentar dar-me de comer. Chegavam a pôr açúcar na sopa para que eu comesse - foram várias as visitas ao médico, por eu não comer quase nada. No meu aniversário, assim que cantavam os parabéns, eu chorava ou escondia-me debaixo da mesa (ainda hoje dá vontade). 

A minha mãe tentou procurar um diagnóstico, mas nos anos 90, o Autismo era pouco falado e a informação era rara de encontrar. No entanto, um psicólogo disse que não podia ser Autismo, porque “ela tem uma amiga, e autistas não têm amigos”. 

E assim foi até aos 29 anos, onde todas as minhas dificuldades foram interpretadas como um problema de personalidade que eu tinha que ultrapassar, e não proveniente de uma deficiência que precisava de apoio. Durante todos esses anos, eu pensava que era preguiçosa, antissocial e/ou que precisava de esforçar-me para mudar quem sou e encaixar na sociedade.  

Essa era a minha identidade para mim mesma. No entanto, quando descobri que era autista, recebi uma identidade muito mais gentil. Eu sou autista, não estou quebrada. Não só comecei a ser mais gentil comigo mesma e a tentar acomodar as minhas dificuldades no dia-a-dia, algo que nunca tinha feito antes, mas também comecei a ser mais eu, e a construir uma identidade. Em vez de continuar a mentir para mim mesma sobre quem eu sou, permiti-me explorar quem eu sou de uma forma honesta. 

A melhor forma que tenho de explicar o que é não saber da nossa própria deficiência: imaginem alguém que não consegue andar, não saber que precisa de cadeira de rodas, e todas as pessoas à sua volta culparem-na por não conseguir andar, porque deve “fazer um esforço”. 

O meu cérebro é diferente. Não menos, apenas diferente. Enquanto o cérebro não autista consegue filtrar e ignorar os barulhos de fundo, o meu decide que tem que processar todos os sentidos, e concentrar-se num de cada vez. Portanto, num bar, não vou ouvir apenas o meu amigo, mas vou ouvir também as mesas do lado, sentir o cheiro das bebidas, o movimento das pessoas, sem conseguir ignorar qualquer som, cheiro ou luz. E, assim como um computador, chega a uma altura que crasha quando temos muitas páginas abertas, o chamado meltdown. 

Continuo a ter dificuldades diárias. Tenho hipersensibilidade auditiva, onde sons como um grupo de pessoas a conversar pode fazer-me sentir sobrecarregada, mas ao mesmo tempo tenho deficiência auditiva e tenho que utilizar aparelho auditivo. Consigo socializar durante umas horas, mas se não fizer pausas sensoriais para fazer estereotipias (movimentos repetitivos) ou ficar em silêncio a recuperar, entro em crise (meltdown). Tenho que gerir a energia ao longo do dia, visto que se gastar demasiada posso não conseguir fazer tarefas básicas, como cozinhar o jantar. Tenho dificuldade em fazer amigos, sou muito literal e racional, e o meu hiperfoco por vezes leva a que me concentre por horas a fim num tema, esquecendo tudo o resto - entre outras inúmeras dificuldades diárias.  

No entanto, não só já não gasto tanta energia a tentar ser “normal”, como trabalho todos os dias para que mais autistas não sintam que têm que o fazer também. Claro que existem coisas que podemos melhorar em nós mesmos como humanos, mas algumas fazem parte de quem somos, e da nossa deficiência. Saber diferenciar e apoiar as nossas dificuldades em vez de sentirmos necessidade de as fazer desaparecer, é libertador. Compreender que o “normal” não existe, e que temos pontos fortes bonitos e importantes para dar ao mundo, é libertador. 

Receber o diagnóstico pode parecer algo triste, mas para mim foi um alívio, como se finalmente conseguisse compreender as quase 3 décadas da minha vida. Pessoalmente, passei anos sem saber sobre a minha deficiência, e era mais pobre por causa disso. Não saber, não a faz desaparecer, e eu não mudava ser autista. Não posso dizer que terminei essa exploração. Ainda estou a redescobrir-me. Mas, agora que aceito e celebro quem eu sou, conheci toda uma comunidade onde encontrei compreensão e apoio, e apaixonei-me por mim mesma pela primeira vez, e sou muito mais feliz por isso. 

Identidade não é um rotulo. Identidade é ter a liberdade de ser. 


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Sara Rocha

Ativista autista e escritora. Licenciada em Análises Clínicas e Saúde Pública e mestre em Gestão e Economia dos Serviços de Saúde. Data Manager na Escola de Medicina da Universidade de Cambridge, na área de investigação cardiovascular. Delegada voluntaria com a UN Women UK. Presidente e co-fundadora da Associação Portuguesa Voz do Autista.

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