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Quando Ser Excelente É Um Risco

Você se lembra da sensação de pegar aquele pacotinho amarelo da Kodak com as fotos reveladas (nem sempre todas) para aí sim descobrir se você saiu bem nas fotos das férias? Era uma época em que telefone era uma coisa e máquina fotográfica era outra. 

A Kodak chegou a ter 90% do market share de filmes e 85% do de câmeras nos Estados Unidos e forte presença de marca em âmbito mundial. Além das inúmeras patentes depositadas com inovações neste mercado, a empresa era praticamente imbatível, porque vendia o filme, os produtos químicos para desenvolver o filme, o papel para a impressão das fotos e até máquinas fotográficas. 

"You press the buttonwe do the rest"era o slogan. Um exemplo de inovação e excelência operacional! George Eastman, que fundou a empresa em 1892 e foi o inventor do filme fotográfico, não chegou a ver o auge da empresa nos anos 70 e muito menos sua decadência. 

Se você fosse um líder da Kodak na época em que a empresa dominava o mercado, tinha lucro na casa dos bilhões, era reconhecida por sua excelência e até chegou a fornecer material para as primeiras fotos do homem na lua, você estaria preocupado? 

O que poderia dar errado, não é mesmo? Se um funcionário entrasse na sua sala para dizer que alguém da equipe havia criado uma câmera digital capaz de tirar fotos de até 0,1 megapixel, será que você daria atenção ou não teria tempo para "essas novidades" que não estavam no plano estratégico da companhia? Steve Sasson, engenheiro da Kodak criou de fato essa câmera em 1975 e a diretoria falou que não seguiria investindo em câmeras digitais porque iria "canibalizar os filmes fotográficos". O resto da história você já deve imaginar. 


3 RISCOS DA EXCELÊNCIA 

Pode soar estranho a princípio, mas a excelência também pode gerar riscos. Destaco três deles: 

#1 A MIOPIA DO SUCESSO 

Ao serem obtidos resultados positivos, é ativado o mecanismo de recompensa do cérebro, liberando dopamina, neurotransmissor ligado às sensações de prazer e motivação. O sucesso "vicia" e é desafiador abrir mão de algo que funciona bem agora (e gera recompensas) para algo que pode ou não dar certo no futuro. É a chamada zona de conforto que pode nos deixar míopes para novas oportunidades.  

#2 A FALSA SENSAÇÃO DE SEGURANÇA 

Aquela frase "não se mexe em time que está ganhando" traduz bem o conceito de zona de conforto e foi um dos maiores erros da Kodak. Quando a empresa (ou o profissional) tem resultados positivos, reconhecimento externo (que ajuda na validação), além do sentimento de satisfação pelos acertos é gerada uma falsa sensação de segurança. A tendência é que se queira manter o status quo a qualquer custo e isso limita a percepção dos sinais do ambiente de que é hora de mudar. 

#3 A INTOLERÂNCIA AO ERRO   

A excelência está diretamente ligada à execução, à ação e ao aprimoramento contínuo. O erro é inimigo da excelência, mas, como inovar se a experimentação pressupõe tolerância ao fracasso? O foco no acerto de curto prazo visando a excelência operacional não pode prejudicar a visão estratégica, que considera a sustentabilidade no longo prazo. É preciso se antecipar às mudanças para que haja tempo hábil para testar novas soluções (e errar se for preciso). Com medo de perder o lucro imediato com os filmes fotográficos, a Kodak deixou de se adaptar às inovações tecnológicas e perdeu a chance de se reposicionar no mercado digital. 


COMO MANTER A EXCELÊNCIA EM CONTEXTOS DINÂMICOS 

Não perceber que as câmeras digitais (e mais tarde os smartphones) poderiam alterar completamente o mercado de fotografia 30, 40 anos atrás é até compreensível. Não ter um processo contínuo de análise do capital ambiental e das competências necessárias (hoje e no futuro), bem como entender como aprimorar os fluxos de conhecimento e as entregas para gerar novos produtos e serviços em pleno século XXI é, no mínimo, contar com a sorte. A chamada quarta Revolução Industrial já sinaliza que muitas Kodaks irão desaparecer nos próximos anos. Os gestores precisam ter um mindset flexível e adaptável para tornar a cocriação de soluções de forma colaborativa e multidisciplinar uma constante. A excelência virá da competência em mudar. 

Como diria Alvin Toffler, "O analfabeto do século XXI não será aquele que não consegue ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender". 


Qual é o impacto que você visualiza no seu setor e na sua profissão? Que novas competências você precisa desenvolver para se manter relevante? Quais são as estratégias que você pode adotar desde já? 


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Camila Pires

Camila Pires é Fundadora da Rede Indigo, uma empresa que desenvolve novas competências para as necessidades do novo mundo. Tem formação multidisciplinar que passa por comunicação, gestão do conhecimento, inteligência empresarial, inovação, processos de aprendizagem, desenvolvimento humano e neurociências pedagógicas em universidades do Brasil e EUA. Tem a missão de ajudar pessoas, equipes e organizações a se prepararem para o futuro do trabalho.

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