RockinRio Humanorama - Quantas Vezes Você Entra Numa Conversa Disposto A Não Ter Razão?

Quantas Vezes Você Entra Numa Conversa Disposto A Não Ter Razão?

Acredito que quando o assunto tem alguma relevância para os envolvidos, a necessidade de ter razão tem predominado nas conversas que “travamos” com as pessoas. Parece mesmo que entramos para um campo de batalha argumentativo, no qual buscamos “armas” para impor ao outro a nossa opinião.

Nesse processo, muitas vezes esquecemos de alguns princípios básicos, como o fato de que “opinião não é argumento”, e que o “argumento não é a verdade”, e principalmente, esquecemos que, quando alguém sai “vencedor” de uma conversa, as duas pessoas perdem.


E por que essa constante necessidade de ter razão?

Muitas vezes isso acontece não apenas pelo conteúdo envolvido naquela conversa, mas pela estrutura de pensamento que norteia a escuta e a fala das pessoas envolvidas. Passamos muito tempo nos dedicando a compreender o conteúdo das nossas trocas e pouco tempo analisando como é a estrutura de pensamento e comportamento que sustenta essas trocas.

De acordo com David Bohm o diálogo é um processo multifacetado, que vai muito além das noções típicas de linguajar e do intercâmbio coloquiais. É um método que examina um âmbito extraordinariamente amplo da experiência humana: nossos valores mais intimamente arraigados; a natureza e a intensidade das emoções; os padrões dos nossos processos de pensamentos; a função da memória, a importância dos mitos culturais herdados; e por fim, a maneira como a nossa neurofisiologia estrutura a experiência do aqui e agora.

Dentro dessa estrutura, um ponto central é a forma e qualidade da escuta que oferecemos à outra pessoa. A Teoria U criou uma classificação bem simples sistematizando em 4 níveis a nossa escuta.

De forma bem resumida são os seguintes:

1. RECONFIRMAÇÃO: Nesse nível de escuta eu capto apenas aquilo que já sei, que já concordo. Ouço a partir “do passado” e não busco saber nada de novo.

2. FACTUAL: Nesse nível eu já percebo fatos novos, mas tenho a tendência de descartar aquilo que difere da minha opinião, porque quero confirmar que estou certo. Na escuta factual, a minha opinião se funde com quem eu sou, e se alguém discorda de mim, sinto que está discordando da minha existência, me sinto ofendido e com necessidade de me defender.

3. EMPÁTICA: Nesse nível eu não só percebo o que é novo, mas exerço uma curiosidade genuína e busco investigar “porque aquela pessoa pensa o que ela pensa”. Eu posso não alterar a minha opinião, mas, no mínimo, saio da conversa com um novo ponto de vista.

4. GENERATIVA: Nesse nível já não importa quem trouxe qual pensamento. Se dissolve a noção de “propriedade sobre as ideias” e com isso a noção do Ego sobre quem está certo ou pensa de determinada maneira. Estou aberto e deixo de ouvir a partir do passado, do que eu já sei, e me coloco a serviço daquele momento e do que posso criar de novo junto com a(s) outra(s) pessoa(s).

Apesar de não existir um nível de escuta certo ou errado, existem os níveis mais superficiais (1 e 2) e níveis mais profundos (3 e 4). Muitas vezes nós operamos em um nível que não contribui para nosso objetivo ou intenção e é para isso que podemos trazer consciência.

Por exemplo, quando queremos criar algo novo ou construir uma solução para um problema e nossa atenção (e escuta) estão voltadas para “ganhar” a discussão, ou defender o nosso ponto de vista, provavelmente estamos operando em um nível de escuta que está desalinhado ao que estamos buscando, e precisamos tomar consciência disso para conseguirmos realinhar nossa atenção com nossa intenção.

As transformações e desafios com os quais nos deparamos hoje, enquanto sociedade, se intensificam exponencialmente a cada dia. Penso que isso acontece, em parte, porque não estamos sendo capazes de aprofundar nosso nível de escuta e de troca uns com os outros.

Questões pessoais e sociais muitas vezes nos mantém no nível 1 e 2 de escuta, tais como, a necessidade de autoafirmação, a busca por aceitação, a urgência por ter razão ou a falta de abertura para compreender aquilo que parece distante do nosso entendimento pessoal. Quando escutamos, não ouvimos apenas o outro, mas também, os nossos pressupostos e crenças que “falam conosco internamente” e que vão sendo construídos ao longo de nossa vida.

No livro O Palhaço e o Psicanalista de Cláudio Thebas e Christian Dunker afirmam que escutar o outro é escutar o que realmente ele diz, e não que nós, ou ele mesmo, gostaria de ouvir. Escutar o que realmente alguém sente ou expressa, e não o que seria mais agradável, adequado ou confortável sentir. Escutar o que realmente está sendo dito e pensado, e não o que nós ou ele deveríamos pensar e dizer.


E como podemos melhorar a nossa qualidade de escuta?

Praticando! Afinal, o que não falta são oportunidades para ouvir.

Na terça feira passada (13.10.20), foi o segundo encontro do Hub Húmus para aprendizagem e prática da Teoria U. Após um tempo de reflexão sobre esse conteúdo, convidamos as pessoas a fazer uma virada de câmera, olhar para si mesmas, para buscar responder a pergunta: o que eu ganho me mantendo em um nível de escuta que não está alinhado com a minha intenção?

Essa pergunta buscava compreender quais são as “recompensas” que obtemos quando não escutamos com abertura o que o outro realmente nos oferece. Podemos impor a nossa opinião, conseguir fazer as coisas do nosso jeito, e até evitar desgastes, mas talvez, no fundo, só estejamos sustentando uma ilusória sensação de controle, de poder, de segurança, de superioridade. Porque na prática o que acontece é que, quando eu “protejo os meu pensamentos”, me distancio do outro e reforço as minhas crenças como a única verdade possível.

Ao final do encontro, conduzimos uma conversa coletiva entre os participantes e ficou reverberando em mim uma pergunta trazida por uma das participantes: que sociedade ganha com pessoas que escutam sem conexão? Essa pergunta gerou em mim outro questionamento: Que tipo de sociedade estamos potencializando com nosso nível atual de escuta e troca?

Se a cada conversa estamos buscando ganhar, pautamos nossa sociedade em egos e pressupostos individuais e exercemos cada vez menos a vulnerabilidade necessária para construirmos juntos. Nas palavras de Brené Brown, vulnerabilidade é incerteza, risco e exposição emocional, e se não estamos dispostos a exercitar esse desconforto em nossas interações com o outro, potencializamos uma sociedade na qual o individualismo predomina e a vaidade se fortalece.

Para completar: se, em regra, estamos todos muito preocupados em “ganhar” as conversas, e se, quando alguém ganha, todos os envolvidos perdem, pelos meus cálculos, a soma da nossa sociedade está dando “altamente negativa”. Por isso, acredito que cabe a cada um de nós individual e coletivamente examinarmos quais “razões” estamos batalhando para manter, e como estamos fazendo isso.


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Marina Galvão

Facilitadora e consultora, apaixonada pela criação de experiências livres de aprendizagem e pelas conexões interpessoais. Atua como Consultora de Aprendizagem Corporativa na nōvi, como Designer de Aprendizagem no Instituto Amuta e, desde 2015, organiza e facilita o Hub para aprendizagem e prática da Teoria U. Tem vasta experiência em desenhar e facilitar workshops, eventos e processos de grupos dentro e fora de organizações.

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