RockinRio Humanorama - Responsabilidade & Culpa: Primas Distantes

Responsabilidade & Culpa: Primas Distantes

Uma confusão muito comum é achar que a responsabilidade e a culpa são irmãs muito parecidas entre si ou que uma é consequência imediata da outra. Ao meu ver, a responsabilidade é erroneamente confundida com a culpa. 

A culpa, muitas vezes, decorre de uma responsabilização por algo que “deu errado”. É como se ela fosse uma cota de sofrimento que pagamos, uma espécie de penalização pelo erro. 

Em um dado momento da história fomos todos considerados culpados. Seja de origem religiosa ou civil, a culpa está arraigada em todas as instituições que os seres humanos pertencem (escolas, organizações, estado, família, comunidades, negócios) e permeia nossas relações diariamente, tanto com o outro, quando com nós mesmos. 

Temos uma tendência de sentir culpa por tudo: desde a culpa católica, passando pela “culpa de mãe”, até a culpa existencial! Sentimos que estamos fazendo “algo errado” mesmo quando não estamos. Sentimos culpa por: comer, amar, dormir, receber elogios, estar bem (pessoal e profissionalmente), e por aí vai. Estamos imersos em uma verdadeira “cultura da culpa”. 

E, na rotina do dia a dia, acabamos por não fazer uma distinção entre culpa e responsabilidade quando afirmamos com a mesma veemência: 
“- Isso é sua responsabilidade!”
“- Isso é sua culpa!” 

Pode ser que, como era sua responsabilidade, você se sinta culpado. Mas não significa que por você se sentir culpado, o acontecimento era de sua responsabilidade. Se refletirmos um pouco mais, iremos perceber, tanto no nível da razão, quanto no nível do sentimento, a grande diferença que existe quando pensamos sobre o que é nossa responsabilidade e o que é nossa culpa. 

A culpa e a responsabilidade podem ser parentes, mas, no máximo, são primas distantes. E, em geral, temos muita dificuldade em assumir a responsabilidade pelas coisas, porque temos medo da sua “prima distante” acabar sendo convidada para o rolê. 

Preferimos não correr o risco de nos sentirmos culpados. Afinal, a culpa está tão presente em nossas dinâmicas, que muitas vezes a vida vira um jogo de “escape” da culpa. Mas penso que existe um paradoxo nessa história: quanto mais entendemos a nossa real responsabilidade nas situações, mais podemos “nos livrar” da culpa correlata. É como que se o antídoto da culpa fosse a própria responsabilidade. 


A culpa em mim 

Ao longo da minha vida percebi que tinha uma relação desgastante com a culpa, ela invadia minhas escolhas e, muitas vezes, norteava minhas ações. Reconheci que eu tinha tanto medo da culpa que, inconscientemente, acabava terceirizando a decisão diante de algumas situações, para reduzir as possibilidades de me sentir “culpada” posteriormente. 

Se, por exemplo, eu estava com outra pessoa e tínhamos que decidir ir para a direita ou para esquerda, buscava decidir conjuntamente ou abdicava de decidir. Me dei conta que esse medo que eu tinha de tomar decisões, de assumir a responsabilidade por uma escolha, tinha relação com a culpa. Eu compartilhava a responsabilidade para, caso fosse necessário, poder compartilhar também a culpa. 

Foi um esforço consciente conseguir perceber as vezes em que eu deixava de seguir o caminho que queria ou desejava, para evitar encontrar com a culpa. 

Então, resolvi me divorciar da culpa. Já fazem uns 5 anos que a culpa não entra no meu vocabulário. As pessoas mais próximas de mim conhecem o jargão que eu uso quando alguém vem me dizer: “- Ah, mas eu não tive culpa” ou “- A culpa não foi sua”, a minha resposta é sempre, "- Eu não 'trabalho' com culpa, eu 'trabalho' com responsabilidade". 

Parece apenas um jogo de palavras, mas é muito mais do que isso. A linguagem não é somente algo semântico, ela carrega sentidos e significados coletivamente compartilhados, a língua de um povo é capaz de transportar poder, violência e acredite …. culpa! 

Na dinâmica social, isso fica muito claro no português com a palavra DESCULPA. Quando pedimos desculpa estamos tentando nos livrar de uma culpa, estamos pedindo para que a outra pessoa “retire de nós” a culpa que sentimos pela atitude que praticamos (independentemente do motivo: seja reconhecendo a culpa, seja dizendo que ela não deveria existir). 

Perceber em quais momentos “colocamos a culpa” (nos outros e em nós mesmos) e, em quais momentos “assumimos a responsabilidade” em nossas interações, diz muito sobre como nos relacionamos. 


Reduzir o consumo de culpa, envolve assumir doses diárias de responsabilidade 

Se você souber até onde vai a sua responsabilidade, você pode “se livrar” das culpa. Se você não é responsável por determinada situação, não tem porque se sentir culpado. Para isso é preciso um alto nível de abertura e conscientização de sua responsabilidade, inclusive nas situações nas quais você gostaria de não ser responsável. 

Gosto da diferenciação que Christian Dunker e Cláudio Thebas trazem em seu livro quando afirmam que a responsabilidade aponta para a solução, e a culpa para a o problema: Responsabilidade é um termo jurídico relacionado ao nível de autonomia que dispomos para criar, seguir e justificar nossas regras de ação. Culpa é um termo moral ligado à violação de preceitos, ideais, ou expectativas. (…) a responsabilidade produz compromissos e reparações, já a culpa produz vítimas, carrascos, santos e vilões. 

Experimente trocar a culpa pela responsabilidade. Para isso, observe em quais momentos você acusa a si mesmo ou os outros de serem culpados e, em que medida, a culpa “está andando” sem a responsabilidade correlata. A responsabilidade remete a consciência, ao pensar, ao agir, a mudanças. A culpa é egóica e não promove o movimento, a ação. 

Na Teoria U, existe um convite e um esforço consciente para dedicarmos nossa atenção ao momento presente - ao agora - e existem quatro distrações, ou obstáculos que podem nos atrapalhar nesse processo, que são o futuro, o passado, o outro e o eu. Nesse sentido, quando tratamos da nossa relação com o passado, a culpa é um grande obstáculo, porque nos faz remoer as situações e não promove aprendizado ou mudança, somente flagelação. Ao aplicarmos culpa perdemos a liberdade de aprender com os acontecimentos, porque a culpa acaba neutralizando a responsabilidade e nos impede de reconhecer o erro. 

Na minha percepção, ao longo do anos aplicando a metodologia da Teoria U, muitas vezes o grande desafio para indivíduos e organizações conseguirem experienciar o “lado direito” do U - o prototipar, o agir, o comodelar - , passa pela dificuldade de (auto) responsabilização do processo, e pelo hábito de encontrar “desculpas” externas impeditivas (culpar as pessoas, o grupo, as ferramentas, o contexto). Por isso, acredito que precisamos esvaziar a culpa e “rechear” a responsabilidade. 


A consciência da culpa x consciência da responsabilidade 

A culpa caminha de mãos dadas com o arrependimento. É muito fácil se sentir culpado quando olhamos para o passado e nos arrependemos daquilo que fizemos, ou achamos que poderíamos ter feito diferente. 

Imagino que se a culpa fizesse uma festa, além do arrependimento, provavelmente ela iria convidar a condenação, a penitência, a vergonha, o remorso, a acusação, a raiva dentre outros convidados muito “simpáticos”. A responsabilidade, por sua vez, talvez convidasse o compromisso, a consciência, a reflexão, a razão, a autonomia, o cuidado, o discernimento, dentre outros. 

Brené Brown, ao abordar o tema, afirma que quando culpamos estamos apenas descarregando desconforto, raiva e dor. A responsabilidade é um processo de vulnerabilidade e tem uma relação oposta a relação de culpa. 

Para mim, a diferença central é que a responsabilidade anda de mãos dadas com a consciência. Quanto mais conscientes nós somos de nós mesmos, dos outros e do mundo, mais responsáveis nós somos. 

Nesse mesmo sentido, quando trata do antirracismo, Grada Kilomba ressalta que o processo de conscientização, não é um processo moral, mas é um processo de responsabilidade (…) Antirracismo não tem a ver com moralidade, tem a ver com responsabilidade. Não tem a ver com culpa, tem haver com responsabilidade. Não tem haver com vergonha, tem a ver com responsabilidade. 

Enfim, a culpa não serve a nada, a não ser para nos penalizar diante de uma situação. A responsabilidade por sua vez, passa pela conscientização, pelo compromisso e reparação. A partir do momento que eu sei de algo, o que eu faço com isso? Esse é o ato de responsabilização. 

Mudar a minha relação com a culpa e a utilização desta palavra, mudou muita coisa para mim. Por isso, te faço esse mesmo convite. Repare em sua vida, qual lugar a culpa ocupa: quantas vezes você assume ou terceiriza a culpa para outra pessoa? Qual é a intenção que emerge em seu pensamento quando você faz isso? Do que você está cuidando ou o que você está tentando proteger? Como você se sente? 

Talvez você descubra uma enorme culpa dentro de você. Talvez você descubra em quais momentos você “escapa” das suas vontades - e da sua responsabilidade - para tentar escapar da culpa. Talvez, assim, você consiga se libertar e ter mais autonomia. 


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Marina Galvão

Facilitadora e consultora, apaixonada pela criação de experiências livres de aprendizagem e pelas conexões interpessoais. Atua como Consultora de Aprendizagem Corporativa na nōvi, como Designer de Aprendizagem no Instituto Amuta e, desde 2015, organiza e facilita o Hub para aprendizagem e prática da Teoria U. Tem vasta experiência em desenhar e facilitar workshops, eventos e processos de grupos dentro e fora de organizações.

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