RockinRio Humanorama - Sê Negativo... Para Teu Bem!

Sê Negativo... Para Teu Bem!

Ok, ok, eu sei que parece meio controverso dizer que a negatividade “dá saúde”, especialmente na era do “sorri que o mundo sorri-te de volta” em que vivemos. Para onde quer que olhemos, vemos mensagens como: “sorri mais vezes”, “pensa positivo”, como se isso fosse fácil e a coisa mais correta a fazer. A verdade é que essas mensagens podem ser mais perigosas do que a maioria pode pensar. Porquê? Porque tais mensagens têm como objetivo afastar o ser humano de um recurso muito natural e psicologicamente importante... a negatividade.

Sim, a negatividade pode ser benéfica (ou ninguém seria negativo, não é verdade?!). Pode ajudar-nos a construir versões mais funcionais de nós mesmos, com mais recursos e consequentemente mais satisfeitas com a vida que levamos. Se alguma vez lerem ou leram o livro The Upside of Your Dark Side (Todd Kashdan e Robert Biswas-Diener), verão que há muitos estudos científicos que suportam esta afirmação.

Não estou a dizer que ser negativo é melhor que ser positivo, mas que há momentos onde permitirmo-nos aceder à nossa negatividade nos pode ajudar a obter melhores resultados na nossa vida, no nosso trabalho, nas nossas relações, etc. O segredo, como se costuma dizer, está no equilíbrio entre as emoções positivas e as emoções negativas. Claro que as emoções positivas geram sensações mais prazerosas, mas isso não significa que devamos estar sempre em estados mentais positivos.

Aqui vão 3 boas razões pelas quais nos deveríamos permitir ser negativos:

1. As emoções são naturais e isso inclui as negativas – enquanto seres humanos, sentirmo-nos tristes, stressados, ansiosos ou receosos é uma consequência natural do nosso dia-a-dia. É a consequência de viver. Mais do que isto, é aceitável que sintamos estas emoções. Quando forçamos sobre nós expressões como “sorri mais vezes” estamos a passar uma mensagem interna de que esse é o estado emocional ideal em que devemos estar e consequentemente a negar um estado emocional muito natural. Estamos a dizer a nós próprios que não deveríamos sentir tristeza ou ansiedade ou stress quando a nossa mente quer, desesperadamente, que deixemos essas emoções sair e expressarem-se livremente sem julgamentos (incluindo os nossos). Se sempre nos forçarmos a sorrir, quando tudo o que nos apetece é chorar, acabamos por nos violentar psicologicamente o que, a longo prazo, terá um impacto altamente negativo no nosso bem- estar psicológico.

2. As emoções negativas fazem-nos mais atentos – as emoções negativas existem por uma razão. Elas protegem-nos, despertam-nos para os perigos, avisam-nos quando alguma coisa não está bem connosco ou à nossa volta. O medo ajuda-nos a reagir ao perigo, a ansiedade torna-nos conscientes de potenciais perigos em nosso redor (Rosen, 2008) e a culpa faz-nos reconsiderar ações passadas que poderão ter sido prejudiciais para outros e retificá-las (Tibbetts, 2003). Por outro lado, emoções positivas podem tornar-nos mais distraídos e inconsequentes. É bom ser relaxado, mas isso também acarreta alguns perigos: menos consciência dos riscos que estamos a correr nas nossas vidas, menos atenção a detalhes importantes no nosso trabalho ou despreocupação com a forma como o nosso comportamento está a afetar negativamente os outros (Biswar-Diener & Kashdan, 2014).

3. A negatividade é um motivador – ninguém muda porque se está a sentir bem. Mudamos quando sentimos que alguma coisa não está bem e nos está a fazer sentir infelizes e sentimos que já não conseguimos/queremos aguentar mais. As emoções negativas estimulam-nos a agir sobre a nossa circunstância e a gerar mudanças positivas. Tal acontece com a raiva (Biswas-Diener & Kashdan, 2014). Raiva é uma emoção negativa fortemente relacionada com o nosso sentido de justiça. Quer dizer, conseguem imaginar um país a lutar pela sua independência ou a fazer uma revolução sem sentir raiva com a forma como está a ser governado? As emoções são métricas psicológicas do nosso bem-estar. Elas dizem-nos quando estamos mais ou menos felizes. As emoções negativas, por seu lado, servem de motivadores. Elas dizem-nos quando não estamos satisfeito(a)s com o caminho que a nossa vida está a levar e, quando atingem um nível de intensidade elevado, motivam-nos a agir. Por isso, devemos escutá-las assim que começamos a senti-las, regular a sua intensidade e começar a agir de uma forma mais saudável na direção das mudanças que pretendemos fazer nas nossas vidas.

Como podemos ver, a negatividade pode ser muito útil e deve ser vista dessa maneira, como um recurso psicológico que temos à nossa disposição para usar em nosso benefício. Novamente, não estou a tentar denegrir a positividade, mas é importante internalizarmos a mensagem de que somos seres humanos, tanto com emoções positivas, como com emoções negativas e que a chave para uma vida melhor está em compreender quando e como utilizar as nossas emoções da forma mais correta, para conseguirmos construir uma versão mais autêntica, completa e plena da nossa vida.



Referências: Baumann, J., & DeSteno, D. (2012). “Context explains divergente effects of anger on risk taking.” Emotion, 12(6), 1,196-1,199. Biswas-Diener, R., Kashdan, T. B. (2014) The Upside of Your Dark Side. New York: Hudson Stree Pass Csizkszentmihalyi, M.(1990). Flow: The Psychology of Optimal Experience. New York: Harpe rand Row Forgas, J. P., & Koch, A. (2013). “Mood effects on cognition” In M. D., E. Harmon-Jones, E.R. Watkins (Eds.), Handbook of Emotion and Cognition (pp. 231-252). New York: Guilford Press Forgas, J.P. (2013). “Don’t worry, be sad! On the cognitive, motivational and interpersonal benefits of negative mood.” Current Directions in Psychological Science, 22(3), 225-232. Hayes, S.C., Luoma, J.B., Bond, F.W., Masuda, A., & Lillis, J. (2006). Acceptance and Commitment Therapy: Model, processes and outcomes. Behaviour Research and Therapy, 44, 1-25. Oishi, S., Diener, E., & Lucas, R. E. (2007). “The optimum level of well-being: Can people be too happy?” Perspective on Psychological Science, 2 (4), 346 – 360. Rosen, R.H. (2008). “Just enough anxiety: The hidden driver of business sucess.” Portfolio; retrieved from:http://www.forbes.com/sites/travisbradberry/2014/02/06/how-successful-people- stay-calm/. Storbeck, J., & Clore, G. L. (2005). “With sadness comes accuracy; with happiness, false memory: Mood and the false memory effect.” Psychological Science, 16 (10). 785-791. Tibbetts, S.G. (2003). “Self-conscious emotions and criminal offending”. Psychology Reports, 93, 101 – 126


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Avatar - Diogo Varandas
Diogo Varandas

O Diogo é um Youth Booster assumido e que sempre quis trabalhar de havaianas. Licenciado em Psicologia em 2008, rapidamente percebeu que a sua paixão é a juventude. Em 2015 certificou-se em Positive Psychology Coaching pela Intall Institute, na Alemanha e pela Positive Acorn, nos EUA . Desde então que tem vindo a desenvolver projetos de career design, com foco na felicidade pessoal. É criador de projetos como o Thumbs Up, o Inspiring Career Camp, o Unlimited Future e o Oh, What An Awesome Life. Adora o que faz mas não gosta de trabalhar (what?), por isso faz questão sempre ter tempo para o surf e umas cervejas com amigos.

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