RockinRio Humanorama - Será Que As Linguagens Audiovisuais Influenciam Nossas Memórias?

Será Que As Linguagens Audiovisuais Influenciam Nossas Memórias?

A sociedade contemporânea vive em um universo cada vez mais digitalizado, ágil e instantâneo. E isso traz impactos em nosso modo de vida, na maneira como nos entretemos e na forma como construímos nossas memórias dessa época no mundo. O fato de hoje praticamente cada um de nós carregar uma boa câmera digital no bolso - nossos smartphones - influencia, e nos influencia, a maneira como nos enxergamos e nos registramos.

A linguagem audiovisual passou por revoluções desde a invenção do cinema. Até os anos 1950 as narrativas audiovisuais eram produzidas para serem consumidas exclusivamente nos cinemas, por pessoas sentadas e focadas e, por isso, tinham em média duas horas de duração de um entretenimento de ritmo calmo e compassado. Com a popularização da TV, as narrativas audiovisuais passaram a se formatar para aproximadamente uma hora de duração. A grosso modo esse é até hoje o tempo de um programa, um episódio de série, novela ou mesmo um telefilme - que chega a uma hora e meia no máximo - para se encaixar em uma grade de programação diária. Com a era digital, e os smartphones, esse tempo de narrativa passa por uma nova revolução. Hoje os conteúdos que consumimos digitalmente não ultrapassam alguns minutos (ou segundos). Nenhum dos outros formatos foi extinto, mas acrescentamos novas linguagens audiovisuais ao longo das décadas.

E como isso impacta em como nos retratamos? A linguagem audiovisual influenciou a maneira como nos enxergamos e vice-versa. Vamos voltar no tempo: Nos anos 1980 surgiu a revolução do videocassete e das câmeras VHS. Era o início da explosão do registro pessoal em vídeo do mundo. É verdade que este tipo de registro já acontecia antes com o super 8, mas não chegou nem perto em volume do vídeo - película era coisa para poucas famílias ricas. O VHS se popularizou barateando o processo de captação e exibição de vídeos caseiros. Pessoas comuns puderam então gravar as festas de família, os aniversários, as viagens, os eventos mais importantes e que mereciam ser guardados para a posteridade. Eram registros que se limitavam apenas à capacidade das fitas e da paciência de quem operava a câmera - grande e pesada. Não existia pós-edição e as cenas acompanhavam o tempo da observação. Essa era a linguagem de nossas memórias audiovisuais. Éramos acostumados com planos longos, observativos e contemplativos da ação. Essa era a linguagem de nossa memória audiovisual. E o cinema e a TV também eram bem mais lentos na época. Filmes com planos de dez segundos eram comuns em filmes do século passado - coisa impensável hoje em dia. As linguagens narrativas se equivaliam.

Avançamos agora para a segunda década do século XXI e a revolução dos smartphones com suas câmeras digitais de ótima qualidade nas mãos de todos. Qualquer um com um smartphone é capaz de registrar em HD o que acontece à sua volta. Mas esses registros não são mais contemplativos e cheios de propósitos. São rápidos, instantâneos e despretensiosos. Assim como os conteúdos que consumimos nas redes sociais, nossas memórias audiovisuais agora são fragmentadas em poucos minutos ou segundos. É uma nova linguagem que se popularizou e se massificou no mundo todo, dos registros pessoais ao cinema, com planos de poucos segundos editados em ritmos cada vez mais frenéticos.

Como será que essa nova linguagem interfere em como vamos recordar de nossos momentos? Talvez essa seja uma pergunta para respondermos daqui há algum tempo. Como os registros rápidos, fragmentados, mas ao mesmo tempo plurais, feitos por várias pessoas simultaneamente e distribuídos em diversas plataformas diferentes vai interferir em como vamos lembrar dessa época em que vivemos? Não existe mais o momento de reunir a família e os amigos para sentar na frente da TV e assistir ao vídeo da festa de aniversário de 5 anos da filha caçula - que já está com 30. Por outro lado, essa ocasião não é mais necessária. Basta compartilhar ou acessar as redes sociais e conferir, quase que instantaneamente, o que está acontecendo na vida de uma pessoa querida.

O que será de nossas memórias daqui para a frente: dispersa, obsessiva e frenética - ou plural, multi formatada e constante? Acho que tudo isso junto. O que isso vai significar? Não faço ideia. E esse é o barato de estar no meio de uma revolução: não saber o que vai acontecer.


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Rodrigo Noventa

Profissional de criação com mais de 20 anos de experiência em projetos no Brasil, América Latina e Portugal. Desde o início da internet tem atuado em busca de desenvolver conteúdos, narrativas e entretenimento. Nessa jornada já dirigiu projetos dos mais variados formatos, seja em portais de internet, agências de publicidade, media company, produtora de filmes e agora como Diretor Criativo da FUN, do grupo Dreamers.

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